Unicidade e Multiplicidade na Ontologia Akbariana da Existência

Esta leitura faz parte de uma série

Este artigo integra a série “Introdução à Cosmologia Sufi segundo Ibn ʿArabī”, desenvolvida a partir de um estudo mais longo publicado no Islamic Space. Cada texto aprofunda um aspecto da cosmologia akbariana em diálogo com a cosmologia científica moderna. Para uma visão geral da série, consulte o Guia da Série:

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Como este texto trabalha termos técnicos de ontologia (como wahdat al-wujūd, aʿyān thābita etc.), pode ser útil manter aberto o Glossário de Termos da Cosmologia Sufi segundo Ibn ʿArabī enquanto você lê.


5. Unicidade e Multiplicidade: A Ontologia Akbariana da Existência

A cosmologia de Ibn ʿArabī não pode ser plenamente compreendida sem sua ontologia, isto é, sem sua visão fundamental sobre o que é a realidade. Para ele, toda a existência é estruturada por uma tensão dinâmica entre:

  • a Unidade absoluta do Real (al-Wujūd al-Ḥaqq);
  • e a multiplicidade infinita das manifestações (al-khalq).

Essa relação não é uma oposição simétrica, mas uma assimetria estruturante: tudo o que existe deve sua realidade ao Ser único, mas o Ser não se esgota na soma de Suas manifestações.


5.1. Unidade do Ser (Wahdat al-Wujūd)

Embora a expressão “Wahdat al-Wujūd” (Unidade do Ser) não tenha sido cunhada pelo próprio Ibn ʿArabī, ela resume bem sua doutrina. Em linhas gerais, ela afirma que:

Existe um único Ser real — Deus — e tudo mais é manifestação contingente desse Ser.

Ibn ʿArabī diz, em formulações equivalentes:

  • o Ser é uno, as essências das coisas são múltiplas;
  • o que chamamos de “existência” das criaturas é um empréstimo do Real;
  • sem o Ser, nada poderia sequer ser pensado.

Isso não significa que “tudo é Deus” em sentido grosseiro (panteísmo vulgar), mas que tudo o que é real participa, de algum modo, do Ser divino, sem jamais o esgotar ou igualar.


5.2. Necessário, possível e impossível

Ibn ʿArabī organiza o conjunto da realidade em três grandes categorias ontológicas:

  1. O Necessário (al-Wājib)
    Corresponde exclusivamente a Deus, o Ser absoluto:

    • autossubsistente;
    • sem começo nem fim;
    • sem dependência de qualquer outro;
    • cuja inexistência é inconcebível.
  2. O Possível (al-Mumkin)
    Engloba todas as criaturas e todas as possibilidades de existência:

    • podem existir ou não existir;
    • são contingentes;
    • dependem radicalmente do Real para ser;
    • são como “formas” nas quais o Ser se manifesta em graus variados.
  3. O Impossível (al-Mustaḥīl)
    Diz respeito ao que contradiz a própria lógica da manifestação, como um “quadrado circular” ou a ideia de dois seres absolutamente necessários coexistindo.

Todo o cosmos está no domínio do possível: o tempo é, precisamente, a ordenação da atualização de certas possibilidades entre outras.


5.3. Entidades fixas (aʿyān thābita)

Um conceito-chave da ontologia akbariana é o de aʿyān thābita, as “entidades fixas” ou “essências arquetípicas”. Elas podem ser descritas assim:

  • são as possibilidades eternas de coisas e seres, tal como existem na ciência divina;
  • não existem no sentido criado, mas possuem realidade enquanto possíveis conhecidos por Deus;
  • podem ou não ser atualizadas na existência.

A manifestação no cosmos é, então, a atualização temporal dessas possibilidades eternas. Em cada instante, o Real “escolhe” quais possibilidades serão trazidas à existência e quais permanecerão apenas como possibilidades conhecidas.


5.4. Manifestação (tajallī) e Nomes Divinos

O processo pelo qual o Real se torna visível na multiplicidade é chamado tajallī (auto-manifestação). Ibn ʿArabī distingue, entre outros, dois grandes modos de tajallī:

  • Tajallī da Essência (tajallī dhātī): absolutamente transcendente, sem relação direta com as criaturas;
  • Tajallī dos Nomes e Ações (tajallī ṣifātī e afʿālī): é aqui que a multiplicidade aparece.

Cada ser no cosmos é, de certo modo, uma função de um ou mais Nomes Divinos. Por exemplo:

  • se Deus é “Aquele que dá forma” (al-Muṣawwir), devem existir formas;
  • se Deus é “O Vivificante” (al-Muḥyī), devem aparecer seres vivos;
  • se Deus é “O Sábio” (al-Ḥakīm), a ordem do cosmos manifesta sabedoria.

A multiplicidade das criaturas é, portanto, a multiplicidade das formas pelas quais os Nomes Divinos se refletem.


5.5. Multiplicidade como espelho do conhecimento divino

Por que existe multiplicidade, se o Ser é uno? Ibn ʿArabī responde recorrendo ao tema do conhecimento divino:

  • Deus conhece infinitas possibilidades de manifestação;
  • esse conhecimento quer ser, por assim dizer, expresso e contemplado;
  • a multiplicidade é o espelho onde o Infinito se reflete em facetas distintas.

Assim:

  • cada criatura manifesta um aspecto particular de um ou mais Nomes Divinos;
  • nenhuma criatura, sozinha, pode esgotar a riqueza do Real;
  • a totalidade das criaturas também não esgota o Real, mas oferece um conjunto sempre renovado de reflexos.

A multiplicidade, longe de ser um “defeito”, é condição para que o conhecimento divino se manifeste de forma diferenciada e amorosa.


5.6. Tensão entre Uno e múltiplo

A relação entre unidade e multiplicidade em Ibn ʿArabī pode ser condensada em uma fórmula célebre:

O Real é o cosmos, mas o cosmos não é o Real.

Isso significa:

  • tudo o que é verdadeiramente real no universo é, em última instância, o próprio Ser divino presente nas coisas;
  • mas o Ser divino não se reduz a nenhuma de suas manifestações nem à soma delas;
  • as criaturas são reais em relação a si mesmas, mas sua realidade é sempre relativa e emprestada.

Essa assimetria evita tanto o dualismo radical (que separaria absolutamente Deus e o mundo) quanto o panteísmo simplista (que os confundiria sem distinção). Em vez disso, propõe uma unidade transcendente que se manifesta em formas múltiplas.


5.7. Tempo como interface entre unidade e multiplicidade

Nos artigos anteriores, vimos como Ibn ʿArabī compreende o tempo como instante indivisível e como ordenação da recriação contínua. Agora podemos ver o tempo também como uma ponte entre o Uno e o múltiplo.

  • O Real, enquanto Ser absoluto, é além do tempo;
  • a multiplicidade das criaturas exige sequência, relação, ordem;
  • o nome que damos a essa ordem é tempo.

Em outras palavras:

  • o tempo é a maneira pela qual a multiplicidade aparece sob o olhar das criaturas;
  • a unidade do ato criador é desdobrada, para nós, como uma sequência de eventos distintos.

Assim, a doutrina da recriação contínua ganha uma formulação ontológica mais profunda: a cada instante, o Real atualiza um conjunto específico de possibilidades (aʿyān thābita), produzindo uma configuração particular do cosmos. O tempo é o rastro dessa atualização na consciência.


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5.8. Nada permanece, exceto o Real

Uma das consequências espirituais mais fortes dessa ontologia é a seguinte:

Nada permanece, exceto o Real.

Tudo o que é criado:

  • aparece e desaparece a cada instante;
  • não possui existência própria;
  • é como uma forma fugaz num espelho, sustentada pela presença invisível do espelho.

Reconhecer isso não conduz ao niilismo, mas à humildade e à confiança:

  • humildade, porque o eu criado não é o centro absoluto da realidade;
  • confiança, porque o fundamento de tudo é o Ser compassivo e sábio.

Viver com consciência dessa verdade é aprender a ver o mundo, o tempo e a própria alma como lugares de passagem da Misericórdia, e não como realidades autossuficientes.


Encerramento da série

Com este artigo, concluímos a série “Introdução à Cosmologia Sufi segundo Ibn ʿArabī”. Ao longo dos textos, percorremos:

  • os fundamentos da cosmologia científica moderna;
  • a estrutura da cosmologia sufi em Ibn ʿArabī;
  • sua concepção original de tempo e de recriação contínua;
  • e a ontologia da unidade do Ser e da multiplicidade das manifestações.

O objetivo não foi oferecer respostas definitivas, mas abrir um espaço de contemplação em que o leitor possa unir conhecimento, fé e experiência interior.

Para retomar o percurso desde o início, você pode voltar ao Guia da Série:

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Referências bibliográficas