O Tempo em Ibn ʿArabī e a Recriação Contínua do Cosmos

Esta leitura faz parte de uma série

Este artigo integra a série “Introdução à Cosmologia Sufi segundo Ibn ʿArabī”, desenvolvida a partir de um estudo mais longo publicado no Islamic Space. Cada texto aprofunda um aspecto da cosmologia akbariana em diálogo com a cosmologia científica moderna. Para uma visão geral da série, consulte o Guia da Série:

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Se algum conceito de tempo, expressão árabe ou termo técnico aparecer de forma densa, você pode recorrer ao Glossário de Termos da Cosmologia Sufi segundo Ibn ʿArabī, que acompanha esta série como material de apoio.


4. O Tempo em Ibn ʿArabī: Dias Divinos, Instantes e a Recriação Contínua

A concepção de tempo desenvolvida por Ibn ʿArabī é uma das mais originais da tradição islâmica. Em contraste com a visão científica moderna, que trata o tempo como dimensão física ligada ao espaço e às equações de movimento, Ibn ʿArabī o entende como uma categoria da percepção e da manifestação.

Para ele, o tempo:

  • não é uma entidade que exista por si mesma;
  • é uma maneira de ordenar os eventos da criação;
  • expressa, de forma velada, o ritmo da ação contínua do Real no cosmos.

4.1. Tempo como construção da alma

Conforme sistematiza Mohamed Haj Yousef, Ibn ʿArabī afirma que o tempo não existe como substância separada. Ele é uma necessidade da alma para organizar a percepção de mudanças.

Ibn ʿArabī distingue, entre outros aspectos:

  • Tempo natural (az-zamān aṭ-ṭabīʿī): ligado aos ciclos astronômicos — rotação da Terra, movimento dos céus, sucessão de dias e noites;
  • Tempo para-natural (az-zamān al-ghayr ṭabīʿī): ligado à atividade intelectiva da Alma Universal e à imaginação humana.

Podemos resumir assim:

  • o tempo natural mede ciclos físicos;
  • o tempo para-natural mede a relação entre o observador e esses ciclos.

Na prática, isso significa que o tempo é sempre tempo percebido. Não há um tempo neutro fluindo “por trás” das coisas; há, antes, um ato divino contínuo, que a alma apreende como sucessão e organiza sob a forma de passado, presente e futuro.


4.2. O instante indivisível (al-Zamān al-Fard)

O conceito-chave para compreender o tempo em Ibn ʿArabī é o de instante indivisível (al-Zamān al-Fard, “o tempo singular”).

Para ele, o tempo verdadeiro não é um fluxo contínuo, mas uma sucessão de instantes atômicos. Cada instante:

  • contém uma criação completa do universo;
  • é único e irrepetível;
  • não pode ser subdividido.

Daí decorre uma afirmação decisiva:

Em cada instante, todo o universo é criado e, em seguida, inteiramente extinto.

O tempo, portanto, não “corre”; ele pulsa. O que chamamos de duração é uma síntese que a alma faz de uma sequência de instantes criativos.

Essa perspectiva ressoa, em nível metafísico, com certos debates da física moderna sobre a discretização do tempo e da energia. Mas, para Ibn ʿArabī, o ponto não é físico, e sim ontológico e espiritual: mostrar a dependência radical do cosmos em relação ao ato criador divino.


4.3. Três tipos de “dias” divinos

Para explicar como a experiência de duração emerge a partir de instantes indivisíveis, Ibn ʿArabī descreve uma complexa teoria dos “dias” divinos. Ele distingue, entre outros, três tipos principais:

  1. Dias circulados (al-Ayyām al-Dā’ira)
    São os dias que se repetem ciclicamente, desenhando os grandes ciclos do cosmos:

    • ciclos planetários;
    • ciclos dos céus;
    • ciclos cosmológicos de longa duração.
  2. Dias retirados (al-Ayyām al-Mukhtaṣa)
    São dias “extraídos” do fluxo circular para constituir eventos específicos. Cada acontecimento singular no universo possui o seu “dia retirado”, ou seja, um bloco de criação associado à sua manifestação.

  3. Dias entrelaçados (al-Ayyām al-Mutadākhila)
    São aqueles em que diferentes “dias retirados” se combinam e se sobrepõem, dando origem à complexidade de nossa experiência temporal. É por causa desse entrelaçamento que temos a sensação de uma continuidade rica, em vez de simples repetição mecânica.

Essa arquitetura dos “dias” permite a Ibn ʿArabī articular, em nível metafísico, o que a física moderna apenas constata em nível fenomenal: o tempo não é uma linha homogênea, mas envolve ritmos, ciclos e estruturas múltiplas.


4.4. Criação em seis dias e o Sábado Eterno

O Alcorão afirma que Deus criou os céus e a terra em seis dias (por exemplo, 7:54 e 25:59). Ibn ʿArabī interpreta esses “dias” de maneira profundamente metafísica:

  • os seis dias correspondem a etapas ontológicas da preparação da criação;
  • o sétimo dia, chamado “Sábado Eterno” (Yawm as-Sabt), é o “dia” em que a criação nos aparece.

Em outras palavras:

  • os seis dias pertencem a um plano além do tempo fenomenal;
  • o sétimo dia é o plano em que percebemos o fluxo do mundo — aquilo que chamamos de história, mudança, duração.

Ibn ʿArabī afirma que os seis dias estão sempre acontecendo, a cada instante, “por trás do véu”. O Sábado Eterno é o horizonte estável em que a criação se mostra, sempre nova, à consciência.


4.5. A recriação contínua (tajdīd al-khalq)

No coração da cosmologia de Ibn ʿArabī está a doutrina da recriação contínua (tajdīd al-khalq). Ela pode ser resumida assim:

O cosmos não foi criado uma única vez no passado; ele é criado e extinto inteiramente a cada instante.

Essa visão se apoia em diferentes fontes:

  • indicações alcorânicas, como o versículo: “A cada dia Ele está em um assunto” (55:29);
  • reflexões metafísicas sobre a contingência das criaturas (elas não podem manter-se por si mesmas);
  • experiência mística, na qual o santo percebe a renovação perpétua do ser.

Consequências dessa doutrina:

  • não há continuidade ontológica absoluta entre um instante e outro; há, antes, uma fidelidade da Misericórdia, que recria o cosmos de forma ordenada;
  • o que chamamos de “lei da natureza” é, na verdade, constância da Vontade divina na maneira de recriar o universo;
  • o passado, enquanto tal, não existe mais; o que permanece é a memória na alma e o efeito de atos já extintos.

Essa maneira de ver abre um horizonte novo para pensar questões como mudança, identidade, causalidade e milagre, sem negar a regularidade observada pela ciência, mas situando-a num quadro ontológico mais amplo.


4.6. Tempo como relatividade ontológica

Enquanto a Relatividade Geral fala de relatividade física do tempo (dependente da velocidade e da gravidade), Ibn ʿArabī fala de uma relatividade ontológica:

  • cada nível de existência possui seu próprio “dia” e seu próprio ritmo;
  • cada esfera celeste tem uma medida de tempo distinta;
  • cada alma percebe o tempo de acordo com seu grau de purificação e de proximidade com o Real.

Assim:

  • o tempo dos anjos não é o tempo dos homens;
  • o tempo dos mundos espirituais não é o tempo dos mundos corpóreos;
  • e, em última instância, o instante criativo é um só, mas a multiplicidade de planos faz com que ele se desdobre em experiências temporais diversas.

4.7. Ecos com problemas da física contemporânea

Sem confundir planos, é possível notar ecos formais entre a visão akbariana do tempo e algumas questões da física moderna:

  • a ideia de instantes atômicos lembra a discussão sobre a discretização do tempo e da energia;
  • a não-localidade quântica encontra um paralelo distante na visão de que a totalidade do cosmos é criada a cada instante como um todo indivisível;
  • as dificuldades em conciliar Relatividade e Mecânica Quântica sugerem que talvez nossas categorias habituais de espaço e tempo não sejam últimas.

Para Ibn ʿArabī, isso não é surpresa: espaço e tempo, tal como os conhecemos, pertencem ao modo particular pelo qual o cosmos se manifesta aos seres humanos. Eles são reais enquanto modos de aparecimento, mas não constituem a realidade última do Ser.


4.8. Implicações espirituais

A doutrina do tempo em Ibn ʿArabī não é um jogo teórico. Ela tem implicações diretas para a vida espiritual:

  • se o universo é recriado a cada instante, cada momento é uma nova oportunidade de retorno a Deus;
  • o crente é chamado a viver com consciência da presença (ḥuḍūr), reconhecendo que nada permanece exceto o Real;
  • a ansiedade excessiva em relação ao passado e ao futuro perde seu fundamento: o que há é o agora como lugar da teofania.

Viver o tempo nessa perspectiva é aprender a ver em cada instante um dom, uma convocação, um espelho da Misericórdia.


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Próximo artigo da série

O próximo texto é o Artigo 5 – Unicidade e Multiplicidade: A Ontologia Akbariana da Existência, no qual veremos como a visão do tempo e da cosmologia em Ibn ʿArabī se apoia em uma ontologia da unidade do Ser e da multiplicidade das manifestações:

/unicidade-e-multiplicidade-na-ontologia-akbariana/

Referências bibliográficas