A Oração na Era da Exploração Espacial: Qibla, Horários e Responsabilidade
A exploração espacial saiu do campo da ficção e entrou no território do cotidiano: estações em órbita baixa, missões de longa duração e projetos ambiciosos de assentamento. Para muçulmanos, isso não substitui um princípio básico: a ṣalāh permanece obrigatória — e a Sharīʿah fornece instrumentos para lidar com incapacidade, risco e circunstâncias extraordinárias.
Ao mesmo tempo, a era espacial coloca questões práticas reais:
- Como orientar-se para a qibla quando você está em órbita?
- Como definir horários se há múltiplos “nasceres do sol” em poucas horas?
- Quais são os limites entre explorar e assumir um risco que, na prática, se aproxima de autoaniquilação?
Este texto organiza o assunto em três blocos:
1) fundamentos no Alcorão e na Sunnah sobre adoração em condições difíceis; 2) diretrizes (fatwa/opinião jurídica) elaboradas na Malásia para a Estação Espacial Internacional (ISS); 3) o conflito jurídico-ético envolvendo a proposta Mars One (missão “sem retorno”) e por que alguns juristas a trataram como suicídio.
Fundamentos: adoração, capacidade e sinais na criação
O Alcorão frequentemente convida a observar os sinais de Allah na criação. Entre as passagens citadas nesse contexto:
- Q. 55:33: “Ó assembleia de jinn e de seres humanos! Se puderdes passar além das regiões dos céus e da terra, então passai; não passareis senão com autoridade.”
- Q. 29:20: “Dize: ‘Percorrei a terra e vede como Ele iniciou a criação…’”
- Q. 3:190–191: “Na criação dos céus e da terra e na alternância da noite e do dia há sinais para os dotados de entendimento…”
Esses textos são frequentemente mencionados para mostrar que conhecer e explorar não é, em si, um tabu — desde que não viole princípios maiores (vida, religião, dignidade, etc.).
Ao mesmo tempo, o Alcorão estabelece limites claros para aquilo que destrói a vida:
- Q. 4:29: “…E não vos mateis. Por certo, Allah é misericordioso convosco.”
- Q. 2:195: “…E não vos lanceis, com vossas próprias mãos, à destruição…”
Do ponto de vista profético, a Sharīʿah reconhece incapacidade e fornece adaptações no rito.
No Sahih al-Bukhari, no capítulo sobre a oração do doente, é narrado que o Profeta ﷺ disse:
- “Reza em pé; se não puderes, então sentado; e se não puderes, então deitado de lado.”
Esse hadith é central porque mostra a lógica geral: quando um requisito físico não pode ser cumprido, o ato não é abandonado; ele é adaptado.
Oração em órbita: por que a ISS exige ijtihād prático
Na órbita baixa, a ISS completa uma volta ao redor da Terra em cerca de 90 minutos, o que implica vários ciclos de luz e sombra em um dia terrestre. Além disso:
- a referência espacial “direção para Makkah” pode variar rapidamente;
- microgravidade dificulta os gestos usuais de rukūʿ e sujūd;
- horários definidos por fenômenos locais (fajr, maghrib, etc.) podem tornar-se impraticáveis sem uma convenção.
Isso faz do assunto um exemplo de como fiqh e astronomia conversam: não para “reinventar” a religião, mas para permitir que a obrigação seja cumprida com consistência.
A diretriz malaia para a ISS (2007): qibla, horários e movimentos
Em 2007, a Malásia enviou o astronauta Sheikh Muszaphar Shukor para a ISS. Segundo o case study do programa Religion and Public Life (Harvard Divinity School), o governo malaio reuniu estudiosos de fiqh, cientistas e envolvidos na missão para elaborar um guia para práticas islâmicas no espaço. O texto descreve o resultado como uma fatwa/opinião jurídica não vinculante para orientar astronautas muçulmanos.
O mesmo estudo resume pontos práticos dessa diretriz, entre eles:
- Direção da qibla:
- orientar-se para Makkah se possível;
- se não for possível, orientar-se genericamente para a Terra;
- se isso também não for possível, orientar-se para “onde quer que seja”.
- Horários de oração e jejum (Ramadān):
- adotar o fuso/horário do local de partida na Terra (no caso citado, Cazaquistão, de onde partiu o foguete).
- Movimentos (sujūd/rukūʿ) em microgravidade:
- usar gestos apropriados com a cabeça ou, em casos limite, visualizar/imaginar os movimentos, conforme a capacidade.
O objetivo explícito, segundo o mesmo texto, era permitir que o astronauta se concentrasse na missão sem ficar paralisado por dúvidas sobre como cumprir obrigações em um ambiente fisicamente anormal.
Esses critérios estão em linha com uma regra ampla de facilitação quando há incapacidade (“se não puderes…”) e com a noção de que Allah não responsabiliza alguém pelo que está além do seu alcance.
Marte, “missões sem retorno” e o conflito jurídico-ético
Uma coisa é ir ao espaço com planejamento, equipe de resgate, redundância e chance realista de retorno. Outra é um projeto declarado como “one-way trip”.
Foi esse o ponto central do debate em 2014 sobre o Mars One. Conforme reportado pela TIME e pela CNN, a General Authority of Islamic Affairs and Endowments (GAIAE), nos Emirados Árabes Unidos, emitiu uma orientação/fatwa advertindo muçulmanos contra a participação, argumentando que o risco tornaria a missão equivalente a um suicídio.
A TIME reproduz a formulação atribuída à autoridade:
- “It is not permissible to travel to Mars and never to return if there is no life on Mars… The chances of dying are higher than living.”
A CNN reporta o mesmo ponto e explicita a lógica: uma viagem sem retorno, com risco dominante de morte, se enquadraria no princípio corânico de não se autodestruir.
Por que alguns juristas trataram como “suicídio”?
O raciocínio (tal como aparece em reportagens e resumos do debate) não depende de “ódio ao espaço”, mas de um princípio: a vida (nafs) é um dos bens maiores a serem preservados e não pode ser descartada deliberadamente.
Os versos mais citados nesse eixo são:
- Q. 4:29: “…E não vos mateis…”
- Q. 2:195: “…não vos lanceis… à destruição…”
A crítica, então, não é à pesquisa espacial, mas a um tipo específico de proposta: assumir como missão o não retorno quando isso implica, de modo previsível, uma probabilidade de morte muito superior à de sobrevivência.
Há unanimidade?
Não. O próprio panorama público mostra divergência:
- a TIME registra que o Mars One pediu a retirada da fatwa e alegou que só enviaria humanos quando um posto habitável estivesse pronto;
- o case study de Harvard menciona críticas de alguns acadêmicos ao tom da fatwa, reforçando que comunidades muçulmanas ainda estão aprendendo a lidar com perguntas “celestes”.
Em fiqh aplicado, isso é esperado: a avaliação de permissibilidade pode variar conforme probabilidade de dano, grau de necessidade, nível de incerteza, e a diferença entre risco inevitável e risco buscado.
Conclusão: preservar a ṣalāh e preservar a vida
A era espacial não cancela a adoração — mas exige humildade metodológica: reconhecer limites físicos e usar as ferramentas tradicionais da Sharīʿah para adaptar a prática.
- Na ISS, diretrizes como as da Malásia (2007) mostram uma resposta pragmática: qibla “por prioridade”, horários por convenção estável (fuso de partida) e gestos conforme a capacidade.
- Para projetos como Mars One (sem retorno), o debate desloca-se do “como orar” para “é lícito se colocar, deliberadamente, numa trajetória de provável morte?” — e por isso muitos juristas evocaram textos que proíbem autoaniquilação.
A síntese é simples: explorar pode ser virtuoso, mas não à custa de tornar o próprio corpo uma oferta descartável. A adoração em ambientes extremos, quando bem orientada, é um testemunho de que a fé não é uma peça de museu terrestre — é uma disciplina viva, capaz de atravessar fronteiras sem romper seus princípios.
Referências
- Department of Islamic Development Malaysia (JAKIM). A Guideline of Performing Ibadah at the International Space Station (ISS) (PDF):
- Harvard Divinity School — Religion and Public Life. Muslims in Outer Space (case study, 2018):
- TIME (TIME World). Islamic Watchdog Issues Fatwa Against Joining Mission to Mars (2014):
- CNN. UAE Islamic affairs authority warns Muslims against a mission to Mars (2014):
- WIRED. A Muslim Astronaut’s Dilemma: How to Face Mecca From Space (2007):