O Mundo Imaginal e sua Função no Cosmos segundo Ibn ʿArabī
Esta leitura faz parte de um ciclo avançado
Este texto aprofunda o tema do mundo imaginal (ʿĀlam al-Mithāl), apresentado de forma introdutória na série principal de cosmologia sufi, e o desenvolve em diálogo com a psicologia espiritual e a fenomenologia do símbolo.
1. O que é o mundo imaginal?
Aqui desenvolveremos:
- a definição precisa de ʿĀlam al-Mithāl em Ibn ʿArabī;
- a diferença entre “imaginal” e “imaginário”;
- exemplos clássicos de manifestações imaginais (sonhos verídicos, visões, símbolos) na tradição islâmica.
Em Ibn ʿArabī, o ʿĀlam al-Mithāl não é um mero “mundo de fantasia”. Ele designa um nível de realidade no qual as formas são reais, mas não são materiais no mesmo sentido das formas sensíveis. Por isso, o termo “imaginal” é preferível a “imaginário”.
O mundo imaginal é, em termos simples, o domínio das formas sutis: imagens, figuras, arquiteturas, sons e cenas que possuem consistência ontológica suficiente para serem percebidas, comunicadas e interpretadas, embora não estejam submetidas às mesmas condições da matéria densa.
2. Imaginal não é imaginário
Uma confusão comum é identificar “imagem” com “subjetividade arbitrária”. Para evitar isso, vale fixar uma distinção operacional:
- Imaginário: produção psíquica privada, frequentemente instável, dependente de associações pessoais e projeções.
- Imaginal: forma sutil objetiva, acessível pela faculdade imaginativa quando ela está purificada e treinada; possui inteligibilidade própria e pode carregar conteúdo verídico.
Isso não quer dizer que toda imagem interna seja imaginal. Significa que existe um domínio em que a imagem é veículo de realidade, e não apenas decoração mental.
3. A faculdade imaginativa como órgão de conhecimento
Na epistemologia espiritual do Islã, a imaginação (al-khayāl) pode ser entendida como um órgão: ela traduz significados (maʿānī) em formas (ṣuwar) e, inversamente, permite que a forma remeta ao significado.
Por isso, o mundo imaginal tem uma função dupla:
- Cosmológica: ele é uma ponte entre o sensível (mulk) e o espiritual (malakūt/jabarūt, conforme as classificações). Sem uma ponte, a passagem entre o puramente inteligível e o puramente sensível ficaria “sem meio”.
- Revelacional e pedagógica: ele permite que verdades espirituais sejam comunicadas em linguagem simbólica, acessível à condição humana.
Esse ponto se conecta diretamente ao tema do tempo estudado no artigo anterior: no imaginal, a experiência temporal pode ser reconfigurada. Um sonho pode condensar uma vida inteira em poucos instantes; uma visão pode trazer um “antes” e um “depois” que não seguem a cronologia comum. Isso não é “violação da física”, mas mudança de camada de experiência.
4. Exemplos clássicos: sonhos verídicos, visões e símbolos
Na tradição islâmica, os exemplos mais frequentes de acesso ao imaginal são:
4.1. Ruʾyā (sonhos verídicos)
O sonho verídico não é apenas um sonho “bonito” ou emocionalmente impactante. Ele se caracteriza por:
- coerência simbólica (a imagem “fala”);
- estabilidade (não se dissolve como um devaneio);
- poder de orientar, advertir ou consolar com precisão.
4.2. Kashf (desvelamento) e visões
Visões podem ocorrer em vigília, sobretudo em estados de recolhimento, dhikr e disciplina interior. O critério, porém, não é a intensidade da experiência, mas o seu fruto: maior retidão, humildade e clareza.
4.3. Simbolismo ritual e cósmico
Muitos símbolos (luz, água, jardim, montanha, céu, estrela) não são apenas metáforas poéticas: eles são “alfabetos” do imaginal. O símbolo é o ponto em que a forma sensível e o significado espiritual se encontram.
5. Formas arquetípicas e Nomes Divinos
Em Ibn ʿArabī, as formas imaginais não são aleatórias: elas se ordenam segundo qualidades que remetem aos Nomes Divinos. Isso explica por que certas imagens aparecem reiteradamente nas narrativas espirituais e nos sonhos verídicos.
Dito de outro modo: o imaginal é o domínio em que o Nome se torna figura, e a figura se torna ensino.
6. Um cuidado essencial: critérios e sobriedade
O mundo imaginal é real, mas é precisamente por isso que ele exige critérios. Dois riscos aparecem com frequência:
- Inflacionar qualquer imagem interna como revelação.
- Reduzir toda experiência imaginal a psicologia pessoal e descartá-la sem discernimento.
O caminho do meio é o mais clássico na tradição: reconhecer a possibilidade do imaginal, mas submeter sua interpretação a sobriedade.
No próximo estudo, essa estrutura ficará ainda mais clara: ao tratar de astros e arquétipos, veremos como o céu funciona, em Ibn ʿArabī, como um grande espelho imaginal-cósmico — não como determinismo, mas como linguagem simbólica da ordem dos Nomes.