Introdução: Cosmologia Científica e Cosmologia Sufi segundo Ibn ʿArabī

Esta leitura faz parte de uma série

Este artigo integra a série “Introdução à Cosmologia Sufi segundo Ibn ʿArabī”, desenvolvida a partir de um estudo mais longo publicado no Islamic Space. Cada texto da série aprofunda um aspecto da cosmologia akbariana em diálogo com a cosmologia científica moderna. Para uma visão geral dos capítulos e dos links para todos os artigos, consulte o Guia da Série:

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Se algum termo técnico, árabe ou expressão específica não estiver claro durante a leitura, você pode recorrer ao Glossário de Termos da Cosmologia Sufi segundo Ibn ʿArabī, que reúne explicações rápidas sobre os principais conceitos usados na série.


1. Introdução à Cosmologia Científica e à Cosmologia Islâmica Sufi segundo Ibn ʿArabī

A palavra cosmologia indica qualquer tentativa sistemática de compreender a origem, a estrutura e o destino do universo. Em nossa época, esse termo costuma ser associado à cosmologia científica moderna, que se apoia em observações astronômicas, modelos matemáticos e leis físicas. No entanto, muito antes da física contemporânea, diferentes tradições religiosas e metafísicas já ofereciam leituras globais do cosmos.

Na tradição islâmica, uma dessas leituras é a cosmologia sufi, que encontra em Muḥyī d-Dīn Ibn ʿArabī (séculos XII–XIII) uma de suas expressões mais profundas. Em sua obra monumental, Ibn ʿArabī descreve o universo não apenas como um conjunto de objetos no espaço, mas como um teatro de auto-manifestação do Real (al-Ḥaqq).

Este primeiro artigo apresenta um panorama geral dessas duas abordagens:

  • Como a cosmologia científica entende o universo físico, seu início e sua evolução.
  • Como a cosmologia sufi descreve a estrutura espiritual da realidade e o sentido metafísico do tempo.

O objetivo não é confundir planos (não se trata de “fazer física sufi”), mas ajudar o leitor a perceber:

  • que a ciência moderna responde sobretudo a perguntas do tipo “como” e “quando”;
  • enquanto Ibn ʿArabī aborda o “porquê” e o “para quê” da manifestação cósmica.

1.1. A Cosmologia Científica: o estudo físico do universo

A cosmologia científica contemporânea considera o universo como um sistema físico regido por leis mensuráveis. Seu ponto de partida são:

  • dados observacionais (telescópios, satélites, sondas),
  • modelos matemáticos sofisticados,
  • e teorias físicas que tentam descrever a dinâmica do espaço-tempo, da matéria e da energia.

Do ponto de vista histórico, duas grandes revoluções moldaram nosso entendimento atual:

  1. A Teoria da Relatividade Geral Formulada por Einstein em 1915, ela descreve o espaço e o tempo não mais como “palcos vazios” onde os fatos acontecem, mas como um tecido geométrico dinâmico (espaço-tempo) capaz de se curvar na presença de matéria e energia. A gravidade deixa de ser uma força no sentido clássico e passa a ser interpretada como curvatura do espaço-tempo.

    Entre as consequências dessa visão estão:

    • o tempo passar mais lentamente em campos gravitacionais intensos;
    • o percurso da luz ser desviado pela presença de massas;
    • a própria forma global do universo depender de sua densidade de energia.
  2. A Cosmologia do Big Bang A partir da observação da expansão das galáxias (lei de Hubble) e da detecção da radiação cósmica de fundo, consolidou-se a ideia de que o universo visível teve um início físico em um estado extremamente denso e quente. Retrocedendo as equações, chegamos a um momento em que o espaço-tempo como o conhecemos emerge.

    Nesse quadro, falar de um “antes” do Big Bang já não faz sentido físico, pois o próprio tempo começa com o universo.

Assim, a cosmologia científica moderna traça um quadro hierárquico do cosmos:

  • partículas elementares → átomos → estrelas → galáxias → grandes estruturas cosmológicas,
  • todas ligadas por leis físicas em permanente evolução.

Importa notar que, por método, a física não tenta responder ao sentido último do universo. Seu foco é descrever regularidades, prever fenômenos e formular modelos coerentes com os dados.


1.2. A Cosmologia Sufi de Ibn ʿArabī: o universo como manifestação do Real

Para Ibn ʿArabī, o universo não é uma realidade autônoma, fechada em si mesma. Ele é, antes, um conjunto de manifestações (tajalliyāt) por meio das quais o Real (al-Ḥaqq) se torna visível em graus e modos variados. Em vez de começar pelo espaço físico, Ibn ʿArabī parte de uma afirmação ontológica radical:

Só há o Ser (al-Wujūd); tudo o mais é manifestação.

Nesse horizonte, o cosmos é compreendido como um conjunto de níveis existenciais e imaginais, estruturados segundo princípios espirituais. Entre os conceitos centrais dessa cosmologia estão:

  • a doutrina da recriação contínua (tajdīd al-khalq) – o universo é recriado a cada instante;
  • a compreensão do tempo como categoria da percepção, relativo e descontínuo;
  • a ideia de que cada nível do cosmos corresponde a graus de consciência e presença.

Em vez de descrever apenas “coisas”, Ibn ʿArabī descreve modos de ser. As esferas celestes, os céus, o Trono, o Pedestal, o mundo imaginal – tudo isso forma um mapa simbólico da relação entre o Real e a criação.

1.2.1. O “Tempo” como imaginação e medida da mudança

Um dos pontos mais originais do pensamento de Ibn ʿArabī é sua teoria do tempo. Longe de concebê-lo como um fluxo absoluto, ele o entende como uma forma de imaginação (takhayyul), uma construção relacional que a alma utiliza para ordenar movimentos e mudanças.

Ele distingue, por exemplo:

  • Tempo natural (az-zamān aṭ-ṭabīʿī): ligado aos ciclos astronômicos (dia e noite, estações, movimentos celestes).
  • Tempo para-natural (az-zamān al-ghayr ṭabīʿī): derivado da atividade intelectual e imaginal da Alma Universal e da consciência humana.

O tempo, nesse sentido, não possui existência independente; ele é uma maneira de perceber e organizar a sucessão de atos criativos do Real.

1.2.2. O cosmos como estrutura espiritual

A cosmologia akbariana organiza o universo em diferentes níveis:

  • Intelecto Primeiro (al-ʿAql al-Awwal) – a primeira determinação, que recebe e contém todas as formas possíveis;
  • Alma Universal (an-Nafs al-Kulliyya) – a “tábua” onde essas formas são inscritas;
  • Corpo Universal (al-Jism al-Kullī) – a primeira corporeidade, matriz de toda matéria;
  • Trono (al-ʿArsh) e Pedestal (al-Kursī) – esferas simbólicas que indicam a abrangência da Misericórdia e da ordem cósmica;
  • Mundo imaginal (ʿĀlam al-Mithāl) – domínio intermediário, nem puramente espiritual, nem material, onde formas sutis se manifestam (visões, sonhos, símbolos reveladores).

Cada um desses planos é, ao mesmo tempo:

  • um nível da realidade,
  • um grau de consciência,
  • e um espelho de capacidades presentes na própria alma humana.

1.2.3. A criação em seis dias e o “Sábado eterno”

Ibn ʿArabī retoma a afirmação corânica de que o mundo foi criado em seis dias, mas interpreta esses “dias” de forma metafísica, não cronológica:

  • os seis dias exprimem etapas ontológicas da preparação da criação;
  • o sétimo dia, chamado “Sábado eterno”, corresponde ao plano em que a criação se torna perceptível para nós.

Assim, a criação é compreendida como um processo sempre atual, no qual o Real manifesta e renova o cosmos instante a instante.


1.3. Convergências e diferenças fundamentais

Embora a cosmologia científica e a cosmologia sufi operem em registros distintos, é possível perceber alguns paralelos formais:

  • A física moderna reconhece que o universo teve um início físico (Big Bang); Ibn ʿArabī fala de um princípio metafísico e de uma criação renovada a cada instante.
  • A Relatividade Geral descreve um espaço-tempo dinâmico e relativo; Ibn ʿArabī afirma que o tempo é relativo à percepção e ao nível ontológico.
  • A física quântica sugere que a realidade fundamental não é intuitiva, envolvendo discretização, indeterminação e não-localidade; Ibn ʿArabī descreve um universo imaginal e simbólico, onde as formas emergem de possibilidades eternas.

No entanto, as diferenças são decisivas:

  • A ciência procura explicar o funcionamento material do universo e fundamentar previsões.
  • A cosmologia sufi de Ibn ʿArabī procura esclarecer o sentido da manifestação, a relação entre o Ser e as criaturas, e o caminho de retorno espiritual.

Em termos simples:

  • a cosmologia científica descreve o palco e o enredo físico;
  • Ibn ʿArabī fala do Autor, do sentido da peça e da forma como o público participa.

Colocar em diálogo a cosmologia científica moderna e a cosmologia sufi de Ibn ʿArabī não significa misturá-las nem reduzi-las uma à outra. O objetivo é mais sutil:

  • reconhecer que a experiência humana do cosmos é, ao mesmo tempo, física e espiritual;
  • evitar tanto o reduccionismo materialista (que ignora o sentido) quanto o espiritualismo ingênuo (que ignora o rigor empírico);
  • mostrar que a Revelação e a metafísica podem inspirar leituras mais amplas da realidade, sem competir com o método científico em seu próprio domínio.

Esse diálogo permite ao leitor muçulmano contemporâneo:

  • apreciar a grandeza do universo físico como sinal (āyah) da Sabedoria divina;
  • compreender que a dimensão quantitativa do cosmos não esgota sua dimensão qualitativa e simbólica;
  • perceber que reflexões sobre o tempo, a origem e o destino do universo podem ser enriquecidas por uma metafísica sólida como a de Ibn ʿArabī.

1.5. O que veremos nos próximos artigos

Nos próximos textos da série, aprofundaremos os temas aqui apenas esboçados:

  • No Artigo 2, examinaremos com mais detalhe a cosmologia científica moderna: espaço-tempo relativístico, expansão, Big Bang, estado inicial, grandes estruturas e desafios conceituais.
  • No Artigo 3, exploraremos a arquitetura da cosmologia sufi de Ibn ʿArabī, com seus níveis ontológicos e imaginais.
  • No Artigo 4, entraremos no coração de sua reflexão sobre o tempo e a recriação contínua.
  • No Artigo 5, veremos como tudo isso se apoia numa ontologia da unidade do Ser e da multiplicidade das manifestações.

Cada etapa pode ser lida separadamente, mas todas formam um percurso gradual de compreensão da relação entre cosmos, tempo e Real.


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Próximo artigo da série

O próximo texto é o Artigo 2 – Fundamentos da Cosmologia Científica Moderna, no qual detalhamos os pilares da visão científica do universo que servirão de base para o diálogo com Ibn ʿArabī:

/fundamentos-cosmologia-cientifica-e-dialogo-com-ibn-arabi/

Referências bibliográficas