Introducao A Cosmologia Sufi Segundo Ibn Arabi Texto Completo


layout: post title: “Introdução à Cosmologia Científica e à Cosmologia Islâmica Sufi segundo Ibn ʿArabī” date: 2025-11-25 10:00:00 -0300 seo_title: “Introdução à Cosmologia Científica e à Cosmologia Sufi segundo Ibn ʿArabī” description: “Estudo introdutório que coloca em diálogo a cosmologia científica moderna e a cosmologia islâmica sufi segundo Ibn ʿArabī, abordando o tempo, a estrutura do cosmos e a doutrina da recriação contínua.” keywords:

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1. Introdução à Cosmologia Científica e à Cosmologia Islâmica Sufi segundo Ibn ʿArabī

A cosmologia, em qualquer tradição, nasce da necessidade humana de compreender a origem, a estrutura e o destino do universo. Na ciência moderna ela se baseia em observação, matemática e leis físicas; na metafísica islâmica sufi, especialmente em Ibn ʿArabī, ela emerge de uma leitura espiritual da existência como manifestação contínua do Real (al-Ḥaqq). Embora pareçam mundos distantes, ambos partilham uma característica essencial: a tentativa de explicar a ordem do cosmos e seu significado.

A seguir, apresento uma visão introdutória que permitirá ao leitor compreender como a cosmologia científica analisa o universo material e como a cosmologia sufi descreve o universo espiritual e metafísico, especialmente por meio da doutrina da recriação contínua e do “Tempo” (az-Zamān), conforme Ibn ʿArabī desenvolve em suas principais obras.


1.1. A Cosmologia Científica: o estudo físico do universo

A cosmologia científica moderna considera o universo como um sistema físico regido por leis mensuráveis. O ponto de partida é a observação astronômica, a análise matemática e a experimentação.

Desde o século XX, duas revoluções moldaram nosso entendimento:

  1. A Teoria da Relatividade Geral descreve o espaço-tempo como um tecido dinâmico capaz de se curvar diante da matéria e da energia. Isso transformou o próprio conceito de “tempo”, que deixou de ser absoluto e passou a ser parte inseparável da geometria do cosmos.

    Conforme enfatizado por Hawking e toda a física relativística, o espaço e o tempo formam uma estrutura única e mutável.

  2. A Cosmologia do Big Bang estabelece que o universo teve um início físico, quando todo o espaço-tempo emergiu a partir de um estado primordial extremamente denso e energético.

    Essa visão concorda com diversas abordagens filosóficas teístas que defendem um começo absoluto do tempo.

A cosmologia científica vê o universo como um conjunto hierárquico: partículas, átomos, estrelas, galáxias e estruturas maiores, todas ligadas por leis da física e em permanente evolução. Em nenhum momento ela tenta responder ao “porquê último”, mas sim ao “como” e ao “quando”.

A ciência revela movimento contínuo, expansão e transformação — elementos centrais que curiosamente também aparecem na cosmologia metafísica de Ibn ʿArabī, embora em contextos completamente diferentes.


1.2. A Cosmologia Sufi de Ibn ʿArabī: o universo como manifestação do Real

Para Ibn ʿArabī (século XII–XIII), o cosmos não é uma entidade autônoma, mas um teatro de auto-manifestação do Real (tajallī) . Em sua visão, o universo inteiro é recriado a cada instante, em um processo contínuo chamado tajdīd al-khalq – “renovação da criação”.

Seu ponto de partida não é o espaço físico, mas o Ser (al-Wujūd). O cosmos é compreendido como um conjunto de níveis existenciais e imaginais, estruturados segundo princípios espirituais e não apenas materiais.

Entre os conceitos essenciais em Ibn ʿArabī encontram-se:

1.2.1. O “Tempo” como imaginação e medida da mudança

Ibn ʿArabī afirma que o tempo não possui existência própria, mas é uma construção relacional da consciência humana , necessária para ordenar eventos e movimentos observáveis no mundo físico.

Ele distingue:

  • O tempo natural , associado aos ciclos astronômicos;
  • O tempo para-natural , proveniente da atividade intelectual da alma.

De acordo com Ibn ʿArabī – Time and Cosmology , o tempo é cíclico, relativo, discreto e heterogêneo , e não um fluxo contínuo absoluto. É por isso que Ibn ʿArabī pode afirmar que cada “instante” contém uma criação completa, e logo depois ela se desfaz para ser novamente criada.

1.2.2. O Cosmos como estrutura espiritual

A cosmologia akbariana organiza os céus, os astros, as esferas e os níveis da realidade como símbolos dos modos pelos quais o Real se manifesta.

O universo é descrito como composto por:

  • O Intelecto Primeiro (al-ʿAql al-Awwal) – origem das determinações.
  • A Alma Universal (an-Nafs al-Kulliyya) – princípio dinâmico que recebe e expressa as formas.
  • Os céus e as esferas , que simbolizam graus de determinação e níveis ontológicos.
  • O mundo imaginal (ʿālam al-mithāl) – ponte entre o espiritual e o material.

Esses elementos não são apenas entidades metafísicas: são também modelos para compreender o movimento interior da alma humana.

1.2.3. A Criação em Seis Dias e o “Sábado Eterno”

Ibn ʿArabī interpreta a criação em seis dias como um processo fora do tempo comum, seguido por um sétimo “Dia” – o Sábado eterno – no qual a criação se manifesta para nós como continuidade temporal.

Assim, o tempo que percebemos é apenas o reflexo do sétimo dia, e todos os seis dias anteriores ocorrem continuamente “por trás do véu”. A criação é um processo eterno acontecendo “agora”, além da percepção normal.

Essa concepção se aproxima, em alguns pontos, de ideias modernas de física que questionam a linearidade absoluta do tempo, embora as bases sejam completamente diferentes.


1.3. A convergência entre as duas cosmologias

Embora a cosmologia científica e a cosmologia sufi operem em domínios diferentes, elas convergem em alguns pontos interessantes:

Cosmologia Científica Cosmologia Sufi (Ibn ʿArabī)
O universo tem início (Big Bang). A criação possui um início metafísico e é continuamente renovada.
O espaço-tempo é dinâmico e flexível. O tempo é relativo, cíclico e condicionado à percepção.
A realidade fundamental não é intuitiva. O cosmos é imaginal e simbólico.
A física busca leis universais. A metafísica busca princípios universais.

As diferenças, porém, são profundas:

A ciência descreve o como da estrutura material; Ibn ʿArabī descreve o porquê da manifestação espiritual.

Ambas, no entanto, revelam que o universo é muito mais rico e complexo do que as aparências sugerem.


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2. Fundamentos da Cosmologia Científica Moderna

Nesta seção, aprofundamos aquilo que a cosmologia científica estabelece como base para a compreensão do universo. O objetivo é situar o leitor dentro do panorama físico contemporâneo antes de confrontá-lo com a cosmologia espiritual de Ibn ʿArabī, cuja profundidade metafísica desafia as categorias comuns de tempo e espaço.

Enquanto o capítulo anterior apresentou um panorama geral, agora detalhamos os pilares que sustentam a cosmologia científica moderna.


2.1. A emergência da visão científica do cosmos

A imagem moderna do universo é surpreendentemente recente. Durante séculos, predominou a perspectiva aristotélica e ptolomaica:

  • universo estático, eterno;
  • Terra fixa no centro;
  • céus perfeitos e imutáveis;
  • movimentos circulares considerados “naturais”.

Essa visão começou a se romper entre os séculos XVI e XX. Copérnico, Kepler e Galileu demoliram o geocentrismo. Newton ofereceu uma mecânica universal, mas ainda concebia o universo como estático.

Somente com o século XX a cosmologia se tornou uma verdadeira ciência, com base em três pilares:

  1. A Relatividade Geral de Einstein (1915)
  2. A descoberta da expansão do universo por Hubble (1924–1929)
  3. A radiação cósmica de fundo (1965)

Esses marcos inauguraram a moderna cosmologia física e abriram caminho para a compreensão do universo como um sistema dinâmico.


2.2. O espaço-tempo da Relatividade Geral

A Relatividade Geral é mais que uma teoria de gravitação: ela redefine o próprio conceito de realidade física.

2.2.1. Espaço e tempo como uma unidade geométrica

Einstein mostrou que:

  • O espaço e o tempo não são entidades independentes.
  • Juntos formam um “tecido” contínuo: o espaço-tempo .
  • A matéria curva esse tecido, e a gravidade é essa curvatura.

Isso significa que:

  • O tempo passa mais lentamente perto de massas grandes (como estrelas ou buracos negros).
  • A geometria do universo determina seu destino.

Essa visão rompe com a ideia newtoniana de tempo absoluto.

Como afirma Hawking (segundo o relatório apresentado por Haj Yousef), o espaço e o tempo são inseparáveis e mutáveis.

2.2.2. A eliminação do “espaço vazio”

A física moderna afirma que não existe “nada”:

até o vazio é cheio de campos quânticos em constante flutuação.

Isso será extremamente relevante mais tarde, quando compararmos com a noção de al-ʿAmā’ (A “Nuvem”) de Ibn ʿArabī – um estado pré-cósmico onde não há nem forma nem distinção, mas onde todos os potenciais estão latentes.

A analogia é apenas funcional, não literal.


2.3. O universo em expansão

A descoberta da expansão cosmológica por Edwin Hubble mudou tudo.

2.3.1. A lei de Hubble: quanto mais longe, mais rápido se afasta

Hubble observou que:

  • Galáxias distantes exibem luz “avermelhada”.
  • Esse desvio para o vermelho (efeito Doppler) indica que estão se afastando.
  • A velocidade de afastamento é proporcional à distância.

Isso implica que:

  • O universo não é estático.
  • Ele está se expandindo em todas as direções.

Ibn ʿArabī já afirmava — de modo inteiramente metafísico — que nada no cosmos permanece imóvel; tudo está em movimento contínuo. Haj Yousef mostra que Ibn ʿArabī menciona inclusive uma estimativa simbólica para a “velocidade das estrelas”, chocantemente próxima da média moderna (), embora por razões espirituais, não físicas.


2.4. O Big Bang e o início do tempo físico

A expansão do universo implica que, no passado, ele estava mais denso e mais quente.

Retrocedendo matematicamente:

  • Tudo converge para um único estado primordial.
  • O espaço-tempo inteiro emerge nesse momento.

A isso chamamos Big Bang .

2.4.1. O tempo teve um começo

Segundo a física:

  • O tempo físico nasce junto com o universo.
  • Não existe “antes” do Big Bang dentro da métrica espaço-tem temporal.

Curiosamente, diversas tradições metafísicas — incluindo Ibn ʿArabī — afirmam que:

  • O tempo é posterior ao ato criativo inicial.
  • A criação ocorre em um “ângulo” da Realidade que não está sujeita ao tempo comum.

No caso de Ibn ʿArabī, o tempo é uma imaginação emergente apenas após a “manifestação” do cosmos — e não uma realidade fundamental.


2.5. O problema do estado inicial

Embora o Big Bang explique a evolução, ele não explica a causa do início.

Isso produziu grandes debates, entre eles:

2.5.1. A Proposta do “Não-Limite” (No-Boundary)

Hawking e Hartle propuseram:

  • O universo primordial não possui fronteira.
  • O tempo se comporta como uma dimensão espacial imaginária.
  • Assim, não há “instante inicial” singular.

Mas, como aponta Yousef (), essa proposta redefine o tempo de maneira não intuitiva e não resolve o dilema filosófico — apenas o reformula.

2.5.2. O desafio filosófico

Se o tempo começa com o universo:

  • O que significa “causa” num quadro onde não há “antes” temporal?
  • Como entender criação sem cronologia?

Esse dilema é diretamente abordado por Ibn ʿArabī:

  • A criação não é um evento temporal, mas uma relação entre o Ser e as manifestações.
  • O tempo é posterior, relativo e dependente da percepção.

Assim, o que é um problema para a física torna-se natural na metafísica sufi.


2.6. A estrutura em larga escala do universo

O universo contém:

  • Estrelas,
  • Galáxias,
  • Aglomerados,
  • Superaglomerados,
  • Filamentos,
  • Vazios cósmicos.

As escalas envolvidas são imensas:

  • A Via Láctea: ~100 mil anos-luz.
  • A galáxia de Andrômeda: 2,9 milhões de anos-luz.
  • Estruturas visíveis: até ~13 bilhões de anos-luz.

Essas dimensões ajudam a contextualizar a grandiosidade do cosmos físico e fornecem paralelos com as camadas e esferas metafísicas descritas por Ibn ʿArabī — não como equivalências, mas como correspondências simbólicas.


2.7. A física quântica e a natureza do real

A mecânica quântica revela:

  • Discretização da energia,
  • Dualidade onda-partícula,
  • Não-localidade.

Vários paradoxos (EPR, Zeno etc.) permanecem abertos.

Haj Yousef sugere que a concepção akbariana da recriação instante a instante pode oferecer um modelo filosófico para alguns desses fenômenos ().

Não se trata de substituir a física, mas de reconhecer que o real pode possuir níveis distintos de funcionamento.

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3.1. O princípio supremo: al-Ḥaqq (O Real)

A visão akbariana parte de uma premissa essencial:

Só há o Ser (al-Wujūd). Tudo o mais é manifestação.

O Real é Absoluto, além de qualquer qualificação. Toda multiplicidade, todas as formas, todos os mundos e todos os tempos são “teofanias” — modos de aparecimento.

É por isso que Ibn ʿArabī afirma que:

  • O universo não possui existência própria.
  • Ele existe apenas enquanto aparece no “espelho” do Não-Ser relativo.
  • E cada instante de existência é renovado pelo Real.

Essa ideia sustenta a doutrina da recriação contínua (tajdīd al-khalq) , que será aprofundada nos capítulos posteriores.


3.2. A “Nuvem” (al-ʿAmā’): o estado pré-cósmico

Segundo Ibn ʿArabī, o primeiro “lugar” onde o Real se manifesta antes de qualquer criação é al-ʿAmā’ — a “Nuvem” ou “Neblina” metafísica.

Ela não é matéria nem espírito, não é substância nem forma.

Mohamed Haj Yousef descreve:

  • al-ʿAmā’ é o campo da indeterminação absoluta .
  • Não possui dimensão, tempo ou composição.
  • É o “espaço potencial” onde as formas podem aparecer.

Em termos metafísicos:

  • É o véu mais próximo do Ser.
  • É o “lugar” onde a criação pode emergir pela primeira vez.
  • É o nível onde ainda não há distinção entre sujeito e objeto.

Ibn ʿArabī cita um hadith profundo:

“Deus estava em uma Nuvem; não havia ar acima dela nem abaixo dela.”

()


3.3. O Primeiro Intelecto (al-ʿAql al-Awwal)

A primeira determinação real que emerge da Nuvem é chamada:

  • O Intelecto Primeiro
  • O Intelecto Universal
  • A Penna Suprema (al-Qalam)

Esse Intelecto:

  • Recebe imediatamente o conhecimento divino.
  • Contém em si todas as “formas” e determinações possíveis.
  • É como uma “programação cósmica” do universo inteiro.

Ibn ʿArabī utiliza a metáfora do “homem instruído”:

Assim como um erudito guarda em si todo conhecimento possível,

o Intelecto Universal contém em si todas as determinações do cosmos.

Haj Yousef destaca que essa estrutura é essencial para compreender a cosmologia akbariana, pois nela se define o destino potencial de toda criação .


3.4. A Alma Universal (an-Nafs al-Kulliyya)

A partir do Intelecto surge a Alma Universal , chamada também:

  • A Tábua Guardada (al-Lawḥ al-Maḥfūẓ)
  • O Repositório das Formas
  • O “Espaço” onde o Intelecto escreve o destino

O Intelecto grava na Alma o que será manifestado no cosmos — o que corresponde, simbolicamente, ao hadith:

“A primeira coisa que Deus criou foi a Pena.”

()

Nessa metáfora:

  • A Pena = Intelecto
  • A Tábua = Alma Universal
  • O “Escritor” = Deus

A Alma Universal possui duas forças:

  1. Força intelectiva – recebe a forma.
  2. Força ativa – imprime a forma na existência.

Essa dualidade explica a passagem da determinação abstrata para a existência concreta.


3.5. O Corpo Universal (al-Jism al-Kullī)

A partir da Alma Universal, forma-se o Corpo Universal , que é:

  • A primeira “corporeidade”.
  • A matriz metafísica de toda matéria.
  • A estrutura de possibilidade para todas as formas sensíveis.

Esse corpo não é físico no sentido científico, mas é o princípio de toda manifestação material.

Haj Yousef explica que é com o Corpo Universal que começamos a falar de:

  • Espaço,
  • Dimensão,
  • Movimento,
  • Direção.

Este é o primeiro “nível” que apoia simbolicamente a astronomia tradicional.


3.6. O Trono (al-ʿArsh) e o Pedestal (al-Kursī)

Acima do Corpo Universal e imediatamente abaixo do Ser estão duas esferas simbólicas fundamentais:

3.6.1. O Trono Divino (al-ʿArsh)

É o nível mais amplo do cosmos manifestado.

  • Contém tudo o que existe.
  • Representa a Totalidade da Existência.
  • Simboliza o domínio da Misericórdia Criadora.

É dito no Alcorão:

“O Todo-Misericordioso estabeleceu-Se sobre o Trono.”

(20:5)

No sentido akbariano:

  • Não é um lugar,
  • Mas o domínio onde o Real se revela com máxima totalidade.

3.6.2. O Pedestal (al-Kursī)

O Pedestal está “dentro” do Trono e representa:

  • A ordem das leis,
  • A estabilidade da criação,
  • A base das determinações naturais.

Como explica Ibn ʿArabī:

  • O Pedestal contém as esferas espirituais e materiais.
  • O Trono contém o Pedestal e tudo mais.

O famoso verso do Alcorão descreve:

“Seu Pedestal abrange os céus e a terra.”

(2:255)


3.7. As esferas e os céus: o cosmos manifestado

A partir do Pedestal, as esferas cósmicas se organizam:

  1. Esferas espirituais superiores
  2. As esferas dos astros (Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno)
  3. A esfera das estrelas fixas
  4. A esfera “sem estrelas” – limite do cosmos sensível
  5. As esferas sublunares – fogo, ar, água e terra

Ibn ʿArabī utiliza esse modelo astronômico não como física , mas como:

  • Um mapa dos estados do ser,
  • Uma hierarquia das possibilidades da manifestação,
  • Uma linguagem simbólica para contemplação.

O próprio Sheik al-Akbar afirma que a ordem das esferas corresponde a graus de consciência e luz , e não a distâncias físicas.


3.8. O mundo imaginal (ʿĀlam al-Mithāl)

Entre o espiritual e o material há um domínio intermediário:

  • Não é físico , mas tem formas.
  • Não é espiritual , mas tem luz.

É chamado mundo imaginal — não “imaginário”, mas imaginal, “intermediário”.

Haj Yousef e Burckhardt explicam que ele:

  • Permite a passagem das determinações espirituais para o mundo material.
  • É o domínio das visões, sonhos verdadeiros e símbolos reveladores.
  • É o “mundo das imagens arquetípicas”.

Para Ibn ʿArabī:

O imaginal é tão objetivo quanto o mundo físico, só que de outra densidade.


3.9. Humanidade como espelho do cosmos

Por fim, Ibn ʿArabī afirma:

  • O ser humano é o resumo do cosmos (al-Insān al-Kāmil).
  • Tudo o que existe no universo exterior existe em grau no interior humano.
  • Conhecer-se é conhecer o cosmos; conhecer o cosmos é conhecer o Real.

Essa visão antropocósmica fundamenta toda a ontologia akbariana.


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4.1. O Tempo como Construção da Alma

Ibn ʿArabī afirma, conforme analisado cuidadosamente por Mohamed Haj Yousef (), que:

  • O tempo não existe como entidade separada ,
  • Mas é uma percepção necessária para que o ser humano organize movimentos e mudanças.

Ele distingue dois tipos:

1. Tempo Natural (az-zamān aṭ-ṭabīʿī)

Criado a partir dos movimentos astronômicos regulares — como a rotação da Terra e os ciclos dos céus.

2. Tempo Para-Natural (az-zamān al-ghayr ṭabīʿī)

Gerado pela capacidade intelectiva da Alma Universal e pela imaginação humana.

De forma prática:

  • O tempo natural mede ciclos físicos.
  • O tempo para-natural mede a relação entre o observador e esses ciclos.

Esta distinção o aproxima surpreendentemente de reflexões modernas sobre tempo psicológico , tempo fenomenológico e certas interpretações quânticas da temporalidade, embora Ibn ʿArabī opere em outro paradigma.


4.2. O Instante Indivisível (al-Zamān al-Fard)

Para Ibn ʿArabī, o tempo verdadeiro é um instante atômico , um momento indivisível chamado:

al-Zamān al-Fard — “o tempo singular” .

Este instante:

  • Contém a totalidade da criação daquele momento.
  • É único, irrepetível e completo.
  • Não pode ser subdividido — assim como o “quantum” não pode ser fracionado na física.

Isso significa que:

Em cada instante, todo o universo é criado e imediatamente aniquilado.

Assim, o tempo não flui: ele pulsa .

Haj Yousef explica que este instante é o núcleo do “tempo real”, enquanto tudo que chamamos de duração é uma coleção de instantes recombinados pela consciência ().


4.3. Os Três Tipos de “Dias”

Ibn ʿArabī desenvolve uma teoria extraordinariamente complexa para explicar como o tempo perceptível emerge dos instantes indivisíveis. Ele fala em três categorias de “dias” divinos , cada uma com função específica na estrutura cósmica do tempo:

1. Os “Dias Circulados” (al-Ayyām al-Dā’ira)

Correspondem aos ciclos completos que se repetem eternamente.

  • Ciclos planetários,
  • Ciclos dos céus,
  • Ciclos cosmológicos — como os milênios.

São os “dias” que desenham o movimento circular na totalidade do espaço celeste.

2. Os “Dias Retirados” (al-Ayyām al-Mukhtaṣa)

Dias específicos “extraídos” do fluxo circular para produzir eventos particulares.

Cada evento singular possui um “dia retirado” — um bloco de criação que determina seu aparecimento.

Essa ideia ajuda a compreender como, apesar da unidade do instante, ainda assim surgem acontecimentos distintos.

3. Os “Dias Entrelaçados” (al-Ayyām al-Mutadākhila)

Estes são os mais sutis:

  • Representam como diferentes “dias retirados” se combinam para produzir nossa experiência do tempo contínuo.

É a estrutura combinatória dos instantes que produz a sensação de duração.

O modelo é profundamente matemático e lembra, em estrutura abstrata, certos modelos combinatórios da física teórica.


4.4. A Criação em Seis Dias e o Sábado Eterno

O Alcorão afirma que o mundo foi criado em seis dias (7:54; 25:59). Ibn ʿArabī interpreta isso metafisicamente:

  • Os seis dias correspondem às etapas ontológicas da preparação da criação.
  • O sétimo dia — chamado Sábado Eterno (Yawm as-Sabt) — é o único que percebemos.

Isso porque:

  • Os seis dias pertencem ao nível onde o Real cria “por trás do véu”.
  • O sétimo dia é quando a criação se torna visível, isto é, quando ocorre o tempo fenomenal .

Segundo Ibn ʿArabī:

A criação dos seis dias acontece continuamente a cada instante,

e o sétimo dia é o momento eterno onde vemos o mundo acontecendo.

Haj Yousef demonstra que isso implica:

  • Uma cosmologia sem “passado real”,
  • Mas com uma criatividade permanente do Real.
  • O que chamamos de passado é apenas a memória da alma.

Isso será crucial para sua tese final do Modelo do Mônada Única .


4.5. A Recriação Contínua (Tajdīd al-Khalq)

Este é o coração da cosmologia de Ibn ʿArabī.

O cosmos não é criado uma vez no passado, mas:

É criado inteiramente a cada instante

e extinguido inteiramente a cada instante .

Essa doutrina é fundamentada em:

  • Indicações corânicas (55:29 – “Em cada dia Ele está em um assunto”).
  • Experiência mística.
  • Lógica metafísica da dependência total do Ser.

Haj Yousef mostra que essa ideia pode resolver paradoxos da física moderna, como:

  • O problema da continuidade versus quantização.
  • O paradoxo EPR (Einstein-Podolsky-Rosen).
  • A aparente contradição entre Relatividade e Mecânica Quântica.

Tudo isso será explorado nos capítulos seguintes.


4.6. O Tempo como Relatividade Ontológica

Enquanto para a física o tempo é relativo por causa da velocidade e da gravidade, para Ibn ʿArabī:

  • O tempo é relativo devido ao nível de existência .
  • Cada esfera celeste possui seu próprio “dia”.
  • Cada mundo possui seu ritmo de recriação.
  • Cada alma percebe o tempo de maneira diferente.

O tempo é múltiplo porque a criação é múltipla — mas o instante criativo é um só .


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Unicidade e Multiplicidade: A Ontologia Akbariana da Existência

A cosmologia de Ibn ʿArabī não pode ser entendida sem a sua ontologia. Para ele, toda a realidade é estruturada por uma tensão dinâmica entre:

  • a Unidade absoluta do Real (al-Wujūd al-Ḥaqq) ,
  • e a multiplicidade infinita das manifestações (al-khalq) .

Tal relação não é uma oposição, mas uma complementaridade estruturante. É esta unidade-manifestação que torna possível:

  • o cosmos,
  • o tempo,
  • o movimento,
  • a experiência humana,
  • e o conhecimento espiritual.

A seguir, analisamos a ontologia akbariana segundo os eixos fundamentais estabelecidos por Ibn ʿArabī e sistematizados por Mohamed Haj Yousef.


5.1. A Unidade do Ser (Wahdat al-Wujūd)

Embora o termo “Wahdat al-Wujūd” não tenha sido cunhado por Ibn ʿArabī, ele expressa perfeitamente sua doutrina: Existe um único Ser real — Deus — e tudo mais é manifestação desse Ser.

Ibn ʿArabī diz:

“O Ser é Uno; as essências das coisas são múltiplas.”

Essa perspectiva implica:

  • Nada possui existência por si mesmo.
  • Toda existência criada é “emprestada” (ʿāriyya), dependente do Ser.
  • As criaturas são “formas” nas quais o Real se reflete.

Logo:

Ser é real; multiplicidade é aparente.

Mas o aparente é também comissionado pelo Real — portanto possui verdade relacional.

Esta visão não elimina o cosmos, mas o transcende e inclui .


5.2. O Mapa Ontológico: Necessário, Possível e Impossível

Ibn ʿArabī organiza toda a existência em três categorias ontológicas:

1. O Necessário (al-Wājib)

É Deus, o Ser absoluto:

  • Autossubsistente,
  • Não condicionado,
  • Sem causa,
  • Sem “como”.

2. O Possível (al-Mumkin)

É o domínio das criaturas:

  • Podem existir ou não existir,
  • São contingentes,
  • São atualizações de possibilidades infinitas,
  • Dependem continuamente do Real para existir.

O “possível” é o campo inteiro do cosmos.

E, como o tempo organiza a manifestação das possibilidades, o tempo é o modo pelo qual o possível é atualizado .

3. O Impossível (al-Mustaḥīl)

Refere-se ao que contradiz a lógica da própria manifestação, como:

  • Um quadrado circular,
  • Dois seres absolutamente necessários coexistindo, etc.

Este esquema ontológico é fundamental para entender o movimento entre unidade e multiplicidade.

( — ver capítulo 5 sobre unicity & multiplicity)


5.3. A Manifestação (Tajallī): como o Uno se torna múltiplo

O Real se manifesta continuamente através de dois domínios:

  1. Tajallī Dhātī (Auto-manifestação da Essência)
    • Imutável
    • Transcendente
    • Inacessível
  2. Tajallī Ṣifātī e Afʿālī (auto-manifestações dos Nomes e Ações)
    • Onde ocorre a multiplicidade
    • Onde o universo aparece
    • Onde o tempo acontece

Assim:

As coisas não “existem” separadas:

elas são modos de revelação dos Nomes Divinos.

Se Deus é “Aquele que dá forma” (al-Muṣawwir), então devem existir formas.

Se Deus é “O Vivificante” (al-Muḥyī), devem aparecer viventes.

Cada ser no cosmos é uma “função” de um Nome Divino.


5.4. A Realidade das Coisas (Aʿyān Thābita)

Um elemento fundamental da ontologia akbariana é o conceito de aʿyān thābita , traduzido como:

  • “Entidades fixas”,
  • “Formas arquetípicas”,
  • “Essências latentes”.

Elas representam:

  • As possibilidades eternas na ciência divina,
  • Antes de serem atualizadas no tempo,
  • Como “ideias” eternas que podem ou não manifestar-se.

Essas entidades:

  • Não existem no sentido comum,
  • Mas possuem uma “realidade” enquanto possibilidades vistas por Deus.

A manifestação no cosmos é justamente:

A atualização temporal de essências eternamente possíveis.


5.5. A Multiplicidade: o espelho do conhecimento divino

A multiplicidade é necessária porque:

  • O Real deseja ser conhecido.
  • O conhecimento só é possível por meio de discriminação.
  • Cada ser manifesta uma faceta diferente do Infinito.

Assim, o cosmos é como um grande espelho multifacetado:

  • Cada criatura reflete um Nome Divino.
  • Somente a soma das criaturas revela a totalidade dos Nomes.
  • E ainda assim, essa totalidade nunca exaure o Real.

( – capítulo sobre ontologia e “oneness of being”)


5.6. A Tensão Ontológica entre Uno e Múltiplo

A tensão entre unidade e multiplicidade é resolvida em Ibn ʿArabī através da doutrina:

“O Real é o cosmos, mas o cosmos não é o Real.”

Ou seja:

  • Tudo é Deus em sentido ontológico profundo (não panteísta).
  • Mas Deus não se reduz às Suas manifestações.
  • As criaturas são reais em relação a si mesmas,
  • Mas não possuem existência independente diante do Real.

É essa relação assimétrica que fundamenta:

  • A dependência,
  • A humildade,
  • O caminho espiritual.

5.7. Tempo como ponte entre o Uno e o múltiplo

Agora podemos conectar a ontologia ao conceito de tempo.

O tempo é a interface da manifestação.

  • O Uno é atemporal.
  • A multiplicidade exige ordem, sequência, relação.
  • A ordem das relações é chamada tempo .

Portanto:

O tempo é a maneira pela qual a multiplicidade aparece.

E como a multiplicidade é renovada a cada instante, o tempo também é “renovado”.

É por isso que Ibn ʿArabī diz:

  • O Real cria o cosmos “em seis dias” — como estrutura de manifestação.
  • O “sétimo dia” é o dia eterno da manifestação contínua.
  • A própria percepção de passado e futuro é produzida pela alma.

5.8. Consequência metafísica: Nada permanece, exceto o Real

Se:

  • a existência criada é possível e contingente,
  • as entidades fixas são apenas possibilidades,
  • a manifestação é contínua,
  • o tempo é uma coleção de instantes criados,

então:

Tudo que existe muda a cada instante porque é renovado a cada instante.

Nada permanece idêntico a si mesmo, exceto o Real.

Esta afirmação é central para compreender:

  • A dissolução do ego,
  • A impermanência das coisas,
  • A visão sufi de transformação contínua,
  • A estrutura do cosmos como fluxo criacional.

( — Seção sobre unicity & multiplicity)


6 – O Modelo da Mônada Única: A Estrutura Dinâmica do Cosmos em Ibn ʿArabī

O chamado Modelo da Mônada Única (Single Monad Model), apresentado por Mohamed Haj Yousef, é uma síntese poderosa dos ensinamentos de Ibn ʿArabī sobre:

  • a natureza do tempo,
  • a renovação contínua da criação,
  • a relação entre unidade e multiplicidade,
  • e o funcionamento real do cosmos.

Trata-se de um modelo cosmológico-metafísico , capaz de dialogar com problemas fundamentais da física moderna como:

  • a quantização,
  • a não-localidade,
  • o paradoxo EPR,
  • e a tensão entre continuidade e discreção.

A seguir, apresentamos o modelo de forma clara, didática e fundamentada nas fontes.


6.1. O ponto de partida: uma única entidade cria o cosmos instante a instante

Segundo Ibn ʿArabī, em sua leitura mais profunda:

O cosmos inteiro não é criado por múltiplas causas, mas por uma única “entidade” operando a cada instante.

Essa “entidade” não é uma substância física, nem um átomo material, mas:

  • um ponto ontológico,
  • um “agente único”,
  • uma mônada creativa,
  • uma centelha indivisível do Ser.

Haj Yousef afirma:

Ibn ʿArabī descreve o universo como sendo produzido por um único “ponto criacional” que atualiza as formas uma de cada vez.

()


6.2. A analogia do “supercomputador”: um universo desenhado pixel a pixel

Para explicar o modelo, Haj Yousef utiliza uma analogia brilhante:

O universo se comporta como a tela de um computador.

  • A imagem parece contínua,
  • Mas na verdade é construída pixel por pixel ,
  • Por um único feixe eletrônico que varre a tela rapidamente.

Da mesma forma:

  • O cosmos parece existir como multiplicidade simultânea ,
  • Mas na verdade ele é produzido ponto por ponto, instante por instante ,
  • Pela ação da Mônada Única .

Isso resolve o problema da aparente contradição entre:

  • Unidade absoluta (o Ser é Um),
  • Multiplicidade dos fenômenos (milhões de eventos simultâneos).

Não há simultaneidade real: o que existe é uma velocidade tão alta de atualização que a multiplicidade parece simultânea.


6.3. Como a Mônada cria tudo? A sequência dos instantes

Segundo Ibn ʿArabī:

Em cada instante indivisível,

a Mônada gera um único “quadro” do universo,

depois outro, depois outro…

Essa sequência:

  • É extremamente rápida,
  • Mas não é infinita em velocidade ,
  • Porque é discreta, como uma “frequência de criação”.

Em outras palavras:

O universo pisca em e para fora da existência.

Isso explica:

  • O caráter quântico discreto das partículas,
  • A impossibilidade de continuidade absoluta,
  • A dissolução instantânea das formas,
  • A profunda dependência de cada fenômeno do Ser.

6.4. Tempo, mudança e atualização

A Mônada Única não apenas cria o universo; ela cria o tempo .

  • Cada instante é uma atualização do universo.
  • O “fluxo” do tempo é a percepção dessa sequência.
  • O tempo real é discreto, não contínuo.

Haj Yousef mostra que isso resolve um grande dilema filosófico e físico:

Como pode o tempo ser ao mesmo tempo contínuo e discreto?

  • Contínuo : na percepção humana.
  • Discreto : na realidade metafísica.

( — seção “The actual flow of time”)


6.5. Por que apenas uma Mônada?

Porque:

  • Se o Ser é Um,
  • então a fonte da manifestação deve ser Una.
  • Multiplicidade de causas levaria a múltiplos Seres, o que é impossível ontologicamente.

A Mônada é:

  • o agente único da criação,
  • o canal pelo qual os Nomes Divinos se revelam,
  • o vértice entre unidade e multiplicidade.

Ibn ʿArabī afirma:

“A realidade última dos seres é uma só realidade.”

( – seção sobre a unificação ontológica)


6.6. O Modelo resolve paradoxos fundamentais

Haj Yousef mostra que este modelo oferece uma solução metafísica elegante para vários paradoxos modernos:

1. Zeno e o problema da continuidade

O tempo é discreto → o paradoxo desaparece.

2. Quantização

Um universo recriado passo a passo naturalmente emerge como discreto.

3. EPR e não-localidade

Se existe apenas uma Mônada criando tudo:

  • Não são “dois objetos comunicando-se instantaneamente”;
  • É um único agente atualizando simultaneamente dois estados .

Assim, “não-localidade” não é estranha — é natural.

4. Conflito entre Relatividade e Mecânica Quântica

A relatividade descreve a aparência contínua,

a ontologia akbariana descreve o processo discreto subjacente.

Este diálogo não une as duas teorias fisicamente, mas metafisicamente.


6.7. A Mônada Única e o ser humano: o espelho final

O ser humano é o microcosmo onde a ação da Mônada se revela:

  • Cada pensamento é um “instante criado”,
  • Cada percepção é uma atualização,
  • Cada mudança interior é um reflexo do ritmo cósmico.

Por isso Ibn ʿArabī afirma que:

O Universo é o “Homem Maior” (al-Insān al-Kabīr)

e o homem é o “Universo Menor”.

A Mônada atua em ambos ao mesmo tempo, pois ambos são faces de uma mesma realidade.


6.8. Consequência final: não existe permanência

Da recriação contínua decorre:

  • Não há substâncias permanentes,
  • Não há movimentos contínuos,
  • Não há causalidade autônoma,
  • Não há identidade fixa.

Tudo é:

  • renovação,
  • emergência,
  • desaparecimento,
  • retorno ao Real.

O único permanente é o Ser.


7 – Implicações para a Física Moderna: A Cosmologia Akbariana e o Diálogo com a Ciência Contemporânea

A proposta de Mohamed Haj Yousef, fundamentada diretamente nos escritos de Ibn ʿArabī, é que certos paradoxos e dilemas da física moderna podem ser melhor compreendidos — não resolvidos tecnicamente, mas compreendidos metafisicamente — quando vistos à luz do Modelo da Mônada Única e da doutrina de recriação contínua .

É importante destacar:

Ibn ʿArabī não oferece física, mas metafísica.

O diálogo aqui não é científico-experimental, mas estrutural e epistemológico.

Entretanto, como a própria física moderna toca nos limites da realidade (tempo, causalidade, continuidade, não-localidade), abrir-se ao diálogo metafísico enriquece a compreensão geral do cosmos.


7.1. Relatividade Geral e o Tempo Dinâmico

A Relatividade Geral descreve o tempo como:

  • não absoluto,
  • dependente do observador,
  • ligado à geometria do espaço-tempo,
  • modificável pela gravidade e energia.

Ibn ʿArabī, por sua vez, descreve o tempo como:

  • não absoluto,
  • relativo ao observador e ao nível ontológico,
  • dependente do movimento das esferas,
  • emergente da relação entre a Alma Universal e as formas.

    ()

A concordância estrutural é notável:

Relatividade Ibn ʿArabī
Tempo = métrica dinâmica Tempo = construção dinâmica da Alma
Depende do movimento e gravidade Depende do movimento celeste e da imaginação
Não existe tempo absoluto O tempo é puramente relacional
O espaço-tempo nasce com o cosmos O tempo nasce após o ato de manifestação

Ambas as visões rompem com o tempo como entidade independente.


7.2. Mecânica Quântica e o Tempo Discreto

Na mecânica quântica:

  • a energia é quantizada;
  • existem “saltos” entre estados;
  • eventos parecem ocorrer discretamente;
  • o tempo, em certos modelos, é tratado como granular.

Segundo Ibn ʿArabī:

O tempo real é composto de instantes indivisíveis — al-zamān al-fard

e cada instante representa uma criação completa e isolada.

()

Isso oferece uma metáfora explicativa :

O universo quântico não é contínuo porque a criação não é contínua.

A quantização torna-se compreensível se:

  • a realidade é atualizada quadro a quadro,
  • como no Modelo da Mônada Única,
  • e não como um fluxo material contínuo.

7.3. O Paradoxo EPR e a Não-Localidade

Um dos maiores enigmas da física moderna é o entrelaçamento quântico (EPR) :

  • Dois sistemas distantes se comportam como se fossem um só,
  • Sem comunicação física,
  • Violando aparentemente o limite da velocidade da luz.

Isso é chamado de não-localidade .

Ibn ʿArabī proporciona um modelo metafísico que dissolve a perplexidade:

A não-localidade não é misteriosa se o universo é criado por uma única Mônada .

Não há duas partículas “comunicando-se”,

mas uma única fonte atualizando dois estados ao mesmo tempo.

Assim:

  • A informação não “viaja”;
  • Ela é gerada simultaneamente,
  • Porque a Mônada não está no espaço-tempo.

( — capítulo 7)

Esse modelo metafísico coincide com interpretações holísticas da física, como a de David Bohm (ordem implicada), embora venha de um paradigma espiritual.


7.4. Zeno e a Paradoxo da Continuidade

Os paradoxos de Zeno (Aquiles e a tartaruga, a flecha imóvel etc.) desafiam a ideia de movimento contínuo.

Segundo Ibn ʿArabī:

O movimento é apenas a percepção da recriação contínua dos instantes.

A flecha não “atravessa” o espaço; ela é recriada em posições sucessivas.

()

Com isso:

  • Não existe movimento contínuo,
  • Mas uma sequência discreta de quadros criados pelo Real,
  • Exatamente como nos frames de um filme.

Assim:

O movimento não é uma transição física, mas uma sequência ontológica.

Isso fornece uma solução elegante aos paradoxos clássicos.


7.5. O Big Bang e a Criação em Seis Dias

A física afirma:

  • O universo teve um início.
  • O tempo nasceu com o Big Bang.

Ibn ʿArabī afirma:

  • A criação tem um ponto inicial espiritual — não temporal.
  • Os “Seis Dias” representam estágios ontológicos da pré-criação .
  • O tempo material nasce no “Sábado Eterno”.

A correspondência estrutural:

Big Bang Ibn ʿArabī
Início físico do tempo Tempo nasce após os Seis Dias
Singularidade inicial al-ʿAmā’ — Nuvem indeterminada
Evolução cósmica Manifestação dos Nomes Divinos
Espaço-tempo criado Tempo é efeito da manifestação

()

Ambas as visões afirmam que o tempo não precede o cosmos.


7.6. Multiversos, possíveis e aʿyān thābita

A física especulativa moderna fala em:

  • Multiversos,
  • Vários estados possíveis,
  • Colapso de função de onda,
  • Realidade em camadas.

Ibn ʿArabī fala em:

  • aʿyān thābita — possibilidades eternas
  • que podem tornar-se manifesta ou não.
  • Cada mundo possível já existe na ciência divina.
  • A Mônada escolhe um “estado” a cada instante.

Assim:

A ideia de múltiplos universos é compatível com a doutrina das possibilidades eternas.

()


7.7. Por que este diálogo é importante?

Este diálogo não visa “provar” teologicamente teorias científicas, nem substituir a física por misticismo. Ao contrário:

  • A cosmologia científica trata do como .
  • A cosmologia akbariana trata do porquê e do nível ontológico profundo .

Mas ambas encontram fronteiras comuns:

  • o tempo,
  • a origem do universo,
  • a continuidade/discretização,
  • a não-localidade,
  • a natureza última da realidade.

A proposta de Haj Yousef é clara:

A metafísica de Ibn ʿArabī não compete com a física,

mas oferece uma linguagem superior para integrar paradoxos

que a física descreve, mas não explica.


7.8. Conclusão: uma ponte entre mundos

O modelo da Mônada Única e a ontologia do Ser fornecem:

  • uma explicação integrada do cosmos,
  • uma visão profunda do tempo,
  • uma compreensão da multiplicidade como reflexo da Unidade,
  • e uma abertura filosófica para dialogar com a física contemporânea.

A física moderna, ao tocar nos limites do real, aproxima-se — mesmo sem querer — de questões que Ibn ʿArabī explorou metafisicamente há mais de 800 anos.

A ponte entre os dois mundos não elimina nenhuma disciplina, mas eleva ambas .


8 – Conclusão Geral: Uma Síntese entre a Cosmologia Científica e a Cosmologia Sufi

A jornada percorrida ao longo deste artigo revelou duas abordagens profundas e complementares para compreender o universo:

a cosmologia científica contemporânea , baseada em observações empíricas e formulações matemáticas, e a cosmologia sufi , inspirada na metafísica de Ibn ʿArabī, sustentada pela compreensão espiritual do Ser e da criação.

Apesar de suas diferenças metodológicas, ambas convergem em pontos centrais que, quando colocados lado a lado, oferecem ao ser humano uma visão extraordinariamente rica da realidade.


8.1. O Universo como Estrutura Dinâmica

A ciência demonstra que:

  • O universo está em expansão.
  • O tempo é relativo e plasticamente inseparável do espaço.
  • A matéria se manifesta de forma quântica e não contínua.
  • O cosmos teve um início físico.

A metafísica akbariana afirma que:

  • O cosmos é continuamente renovado em cada instante.
  • O tempo é relacional e não absoluto.
  • A realidade é discretizada em “instantes singulares”.
  • A criação possui um início ontológico anterior ao tempo físico.

Ambas, cada uma a seu modo, rompem com a ideia de um universo estático e eterno.


8.2. A Estrutura do Tempo como Chave Comum

O “tempo” é talvez o ponto mais profundo de integração:

Ciência Ibn ʿArabī
Tempo nasce com o Big Bang Tempo nasce com a manifestação
Tempo relativo ao observador Tempo relativo ao nível de existência
Tempo deformado por gravidade Tempo deformado por percepção e posição ontológica
Modelos discretos emergem na física quântica O tempo é composto de instantes discretos

O que separa as duas tradições é:

  • O referencial científico (espaço-tempo físico),
  • O referencial metafísico (ordem da existência).

Mas o ponto de contato é profundo:

o tempo não é absoluto em nenhum dos dois sistemas .


8.3. Unidade e Multiplicidade: O Mistério Central

A física moderna enfrenta a difícil tarefa de:

  • Unir a Mecânica Quântica (mundo do muito pequeno)
  • à Relatividade Geral (mundo do muito grande).

A metafísica de Ibn ʿArabī nunca teve esse problema, pois ela parte da premissa unificadora:

O Real é Um, e a multiplicidade é derivada.

O Modelo da Mônada Única oferece um quadro onde:

  • A unidade do Ser é a fonte,
  • A multiplicidade é a sequência de atualizações,
  • O cosmos é uma projeção dinâmica,
  • O tempo é o índice dessa atualização.

A ciência, ao tentar unificar teorias, aproxima-se (sem saber) desse esquema filosófico unificador — embora sem a linguagem metafísica que Ibn ʿArabī fornece.


8.4. A Criação Contínua e os Paradoxos Científicos

Questões perturbadoras da física moderna, como:

  • a não-localidade quântica,
  • a quantização da energia,
  • o paradoxo de Zeno,
  • o colapso da função de onda,
  • e o início do cosmos,

tornam-se mais inteligíveis quando vistas sob a lente akbariana.

Não que Ibn ʿArabī resolva tecnicamente esses problemas — ele não propõe experimentos, equações ou modelos testáveis.

Mas ele oferece uma estrutura ontológica onde:

  • a mudança é discreta,
  • a simultaneidade é ilusória,
  • a existência é condicional,
  • e o cosmos é recriado a cada instante.

A metáfora é clara:

O universo é uma imagem que “pisca” em e para fora da existência.

Apenas percebemos continuidade graças à imaginação universal.

Isso ecoa — de forma metafísica — modelos discretos de tempo discutidos em física teórica.


8.5. O Lugar do Ser Humano no Cosmos

A ciência vê o ser humano como:

  • Um produto tardio da evolução cósmica,
  • Resultado natural de processos físico-químicos.

Ibn ʿArabī vê o ser humano como:

  • O espelho onde Deus contempla Suas próprias qualidades,
  • O resumo do cosmos,
  • O ponto de convergência entre espírito e matéria,
  • A chave para compreender o universo.

Não há contradição aqui — apenas dois níveis diferentes:

  • Biológico-cósmico (ciência),
  • Metafísico-espiritual (sufismo).

Ambos podem coexistir perfeitamente.


8.6. O Cosmos como Livro Sagrado

Para a cosmologia científica:

O cosmos é um sistema físico regido por leis naturais.

Para Ibn ʿArabī:

O cosmos é um texto (kitāb) escrito por Deus,

no qual cada fenômeno é uma letra,

cada lei é um Nome Divino,

e o ser humano é o intérprete.

A ciência lê o “como” do livro;

a metafísica lê o “porquê”.


8.7. Síntese Final

O diálogo entre cosmologia científica e cosmologia sufi não é:

  • fusão,
  • sincretismo,
  • nem redução de uma à outra.

É complementaridade :

  • A ciência descreve o mundo.
  • A metafísica descreve o Ser do mundo.

A ciência modela o universo visível.

Ibn ʿArabī explica a estrutura ontológica que torna possível a existência do universo visível.


8.8. Caminhos futuros

Este artigo é introdutório.

A partir dele, podemos desenvolver temas específicos, como:

Basta solicitar qual deseja abordar.


Referências bibliográficas