Fundamentos da Cosmologia Científica Moderna e o Diálogo com Ibn ʿArabī

Esta leitura faz parte de uma série

Este artigo integra a série “Introdução à Cosmologia Sufi segundo Ibn ʿArabī”, desenvolvida a partir de um estudo mais longo publicado no Islamic Space. Cada texto aprofunda um aspecto da cosmologia akbariana em diálogo com a cosmologia científica moderna. Para uma visão geral da série, consulte o Guia da Série:

Guia da Série

Caso algum termo técnico da cosmologia, expressão árabe ou conceito sufi apareça como novidade, você pode consultar o Glossário de Termos da Cosmologia Sufi segundo Ibn ʿArabī, que acompanha esta série.


2. Fundamentos da Cosmologia Científica Moderna

Antes de mergulhar na arquitetura espiritual do cosmos em Ibn ʿArabī, é importante compreender, ainda que em linhas gerais, como a cosmologia científica contemporânea descreve o universo físico. Esse panorama nos permitirá perceber, com mais clareza, tanto as convergências formais quanto as diferenças profundas entre esses dois modos de olhar o mesmo cosmos.


2.1. Da visão antiga ao universo dinâmico

Durante muitos séculos, predominou no mundo ocidental a visão aristotélico-ptolomaica do universo:

  • cosmos estático e eterno;
  • Terra fixa no centro;
  • céus perfeitos e imutáveis;
  • movimentos circulares considerados “naturais”.

A partir da Revolução Científica, essa visão foi progressivamente substituída:

  • Copérnico desloca a Terra do centro (heliocentrismo);
  • Kepler descreve órbitas elípticas, rompendo com a exigência de círculos perfeitos;
  • Galileu inaugura uma física baseada na observação e na experimentação sistemática;
  • Newton formula uma mecânica universal que, embora ainda pressuponha um espaço absoluto e um tempo uniforme, oferece uma linguagem rigorosa para descrever o movimento de corpos celestes e terrestres.

No entanto, até o início do século XX, o universo ainda era concebido, em grande parte, como estático. Foi preciso um conjunto de descobertas revolucionárias para que a cosmologia se tornasse uma verdadeira ciência do universo como um todo.


2.2. O espaço-tempo da Relatividade Geral

A primeira grande virada foi a Teoria da Relatividade Geral, de Albert Einstein (1915). Ela parte de uma ideia simples e radical: a gravidade não é uma força no espaço, mas uma expressão da geometria do próprio espaço-tempo.

2.2.1. Espaço e tempo como uma unidade geométrica

Segundo a Relatividade Geral:

  • espaço e tempo formam uma entidade única, o espaço-tempo;
  • a presença de matéria e energia deforma esse tecido;
  • o movimento dos corpos segue as “geodésicas” resultantes dessa curvatura.

Isso implica consequências surpreendentes:

  • o tempo não passa da mesma forma em todos os lugares;
  • relógios em campos gravitacionais intensos atrasam em relação a relógios em campos mais fracos;
  • a trajetória da luz é desviada na vizinhança de grandes massas (lentes gravitacionais).

A noção de um tempo absoluto, uniforme e independente é abandonada. O tempo torna-se relativo ao estado de movimento e ao campo gravitacional.

2.2.2. A eliminação do “vazio absoluto”

A física moderna também questiona a ideia de um “espaço vazio” no sentido forte. Mesmo onde não há partículas materiais, há campos quânticos em flutuação. O “vácuo” deixa de ser um nada absoluto e passa a ser um domínio de potenciais físicos.

Esse ponto é particularmente interessante para o diálogo com Ibn ʿArabī, que falará de uma realidade pré-cósmica chamada al-ʿAmā’ (“Nuvem”), na qual todas as formas estão latentes antes de qualquer determinação. A analogia é apenas sugestiva — não se trata de identificar a Nuvem com o vácuo quântico —, mas ajuda a treinar o olhar para níveis de realidade que não se reduzem ao que é imediatamente visível.


2.3. O universo em expansão

A segunda grande revolução veio com a descoberta de que o universo está se expandindo.

2.3.1. A lei de Hubble

No final da década de 1920, Edwin Hubble observou que a luz emitida por galáxias distantes apresentava um desvio para o vermelho (redshift). A interpretação mais coerente é que essas galáxias estão se afastando de nós.

Hubble constatou, ainda, que:

  • quanto mais distante a galáxia, maior é o seu redshift;
  • ou seja, sua velocidade de afastamento é aproximadamente proporcional à distância.

Essa relação é conhecida como lei de Hubble e indica que o universo, como um todo, não é estático. Em grandes escalas, o espaço entre as galáxias está se dilatando.

2.3.2. Consequências da expansão

Se o universo está se expandindo hoje, isso sugere que, no passado, ele estava mais denso e mais quente. Voltando no tempo pelas equações da Relatividade Geral, chega-se a um estado primordial em que a densidade e a temperatura se tornam extremamente altas.

Daí emerge o modelo do Big Bang: o universo observável teria surgido de uma fase inicial compacta, a partir da qual o espaço-tempo vem se expandindo até chegar à configuração atual.


2.4. O Big Bang e o início do tempo físico

O modelo do Big Bang não é apenas uma narrativa imaginativa; ele é sustentado por diversos indícios empíricos:

  • a própria expansão do universo, expressa na lei de Hubble;
  • a existência da radiação cósmica de fundo em micro-ondas, vestígios do universo primordial quente e opaco;
  • a abundância relativa de elementos leves (hidrogênio, hélio, lítio), consistente com os cálculos da nucleossíntese primordial.

2.4.1. O tempo teve um começo?

No quadro padrão da cosmologia, o tempo físico começa com o Big Bang. Perguntas como “o que havia antes do Big Bang?” se tornam ambíguas, pois o próprio parâmetro “antes/depois” supõe uma métrica temporal que não se aplica fora do processo de expansão do universo.

Filósofos e físicos têm proposto diversos modelos para lidar com essa questão, como, por exemplo, a proposta do “não-limite” (no-boundary) de Hartle e Hawking, na qual o universo inicial não teria uma borda temporal no sentido clássico. Mas, do ponto de vista existencial, permanece a pergunta: por que há algo em vez de nada?

É precisamente nesse ponto que a cosmologia científica atinge o limite de seu método e onde a metafísica de Ibn ʿArabī oferece outra linguagem para pensar a origem, não como um evento no tempo, mas como uma relação eterna entre o Ser e as possibilidades de manifestação.


2.5. Estrutura em larga escala do universo

A cosmologia moderna também investiga a estrutura em grande escala do cosmos:

  • estrelas agrupadas em galáxias;
  • galáxias reunidas em aglomerados e superaglomerados;
  • longos filamentos de matéria e vastos vazios cósmicos.

As dimensões envolvidas são vertiginosas:

  • a Via Láctea tem cerca de 100 mil anos-luz de diâmetro;
  • a galáxia de Andrômeda está a quase 3 milhões de anos-luz;
  • observamos galáxias a distâncias superiores a 13 bilhões de anos-luz.

Essas escalas ajudam a perceber a magnitude do universo físico e, ao mesmo tempo, colocam em questão nossa posição dentro dele: um planeta modesto em torno de uma estrela comum numa galáxia entre bilhões.

Na leitura de Ibn ʿArabī, essa pequenez física não implica insignificância espiritual: o ser humano é descrito como síntese do cosmos (al-Insān al-Kāmil), um microcosmo no qual se refletem todas as dimensões da realidade.


2.6. A física quântica e a estranheza do real

A mecânica quântica introduz uma outra camada de complexidade na visão científica do mundo. Entre seus traços característicos estão:

  • a discretização de certas quantidades físicas (como energia);
  • a dualidade onda-partícula, em que entidades microscópicas se comportam ora como partículas, ora como ondas;
  • a não-localidade, evidenciada em fenômenos como o emaranhamento quântico, que desafia intuições clássicas de separação espacial.

Esses aspectos geram paradoxos conceituais (como o paradoxo EPR) e debates interpretativos intensos. Alguns físicos e filósofos têm sugerido que o quadro quântico indica que a realidade fundamental é mais “profunda” e menos intuitiva do que nossa experiência macroscópica sugere.

É importante insistir: não se trata de usar Ibn ʿArabī para “explicar” efeitos quânticos. Mas sua doutrina da recriação instante a instante — segundo a qual o universo é continuamente trazido à existência e retirado dela — oferece um modelo metafísico no qual a descontinuidade e a dependência radical do ser em relação ao Real são levadas ao extremo.


2.7. Limites da cosmologia física e abertura para a metafísica

A cosmologia científica é uma conquista extraordinária do intelecto humano. Ela desvenda estruturas, leis e histórias que nos permitem contemplar com assombro a vastidão do universo. Porém, por sua própria natureza metodológica, ela não responde a certas perguntas:

  • Por que existe um universo em vez de nada?
  • Qual o sentido último de sua existência?
  • Como relacionar a estrutura física do cosmos com a experiência interior de consciência, valor e finalidade?

Essas questões abrem caminho para a metafísica e a espiritualidade. A cosmologia sufi de Ibn ʿArabī não concorre com a ciência nesses pontos; ela fala de algo anterior e mais abrangente: a relação entre o Ser absoluto e a multiplicidade contingente, a lógica da manifestação e do retorno.

Nos próximos artigos, veremos como essa metafísica se expressa num verdadeiro mapa espiritual do cosmos, articulando níveis da realidade, hierarquias de existência e o lugar singular do ser humano.

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Próximo artigo da série

O próximo texto é o Artigo 3 – Estrutura da Cosmologia Sufi segundo Ibn ʿArabī, no qual exploramos o mapa ontológico e imaginal do cosmos na perspectiva akbariana:

Artigo 3 – Estrutura da Cosmologia Sufi segundo Ibn ʿArabī

Referências bibliográficas