A Física do Tempo e o Sábado Eterno em Ibn ʿArabī

Esta leitura faz parte de um ciclo avançado

Este artigo dá continuidade ao percurso iniciado na série “Introdução à Cosmologia Sufi segundo Ibn ʿArabī” e aprofunda, em nível mais técnico, a relação entre tempo, cosmologia sufi e física moderna.

Para o leitor que ainda não percorreu a série introdutória, recomenda-se começar pelo guia:

/2025/12/02/guia-da-serie-cosmologia-sufi-ibn-arabi.html


1. Relembrando o tempo em Ibn ʿArabī

Nesta seção, retomamos brevemente os pontos essenciais:

  • o tempo como construção da alma e categoria de percepção;
  • o instante indivisível (al-Zamān al-Fard);
  • a recriação contínua do cosmos (tajdīd al-khalq);
  • os dias divinos e o Sábado Eterno.

A partir dessa base, avançaremos para uma leitura mais fina da noção de Sábado Eterno e suas ressonâncias com a física do tempo.

O ponto decisivo é que Ibn ʿArabī não está interessado no tempo como “coisa” independente, mas no tempo como medida de mudança e como forma de apreensão. Assim, aquilo que chamamos de “passado” e “futuro” se organizam em torno do modo como a alma recorta e interpreta o fluxo do real.

Ao mesmo tempo, a metafísica akbariana sustenta algo mais radical: a realidade criada não é um bloco estável que “permanece no tempo”; ela é recriada a cada instante (tajdīd al-khalq). Essa recriação contínua impede que o tempo seja entendido como recipiente; o que há é uma sucessão de doações (ifāḍāt) pela qual o ser aparece, desaparece e reaparece sob novas determinações.

2. O instante indivisível (al-Zamān al-Fard) e a descontinuidade do “continuum”

Quando Ibn ʿArabī fala do instante indivisível, ele oferece uma chave para pensar o tempo sem transformá-lo num objeto. O “instante” não é apenas um ponto matemático em uma linha; é o mínimo fenomenal no qual a realidade se apresenta.

Em linguagem contemplativa: o mundo não é algo que “vai sendo” ao longo de uma duração homogênea, mas algo que é de novo em cada “agora”. A continuidade que sentimos é, em larga medida, uma síntese operada pela alma.

Isso não significa que o tempo físico seja falso; significa que ele é uma camada de descrição. A cosmologia sufi tende a operar com uma distinção entre:

  • o tempo como medida e coordenação de movimentos (camada cosmológica e física);
  • o tempo como experiência interior do devir (camada psíquica);
  • o tempo como modo de teofania e de determinação dos “dias divinos” (camada metafísica).

3. “Dias divinos” e a ideia de Sábado Eterno

Os “dias” (ayyām) não devem ser lidos como simples unidades cronológicas. Eles indicam modos de manifestação: ritmos e qualidades segundo os quais os Nomes Divinos se tornam patentes no cosmos.

Nesse horizonte, o Sábado Eterno não é um “dia a mais” na sequência temporal, mas um símbolo da estabilidade principial do Real (al-Ḥaqq) em relação à mutabilidade das formas. A criação se renova no instante, mas o Princípio não muda; ele é a “paragem” (sukūn) por detrás do movimento.

Uma forma útil de enunciar isso é:

  • o mundo criado “trabalha” no sentido de alternar determinações, formas e estados;
  • o Princípio é “sábado” no sentido de que é a quietude do fundamento, não a interrupção cronológica de um processo.

4. Diálogo cuidadoso com a física do tempo: onde a analogia ajuda e onde atrapalha

É tentador aproximar o “instante indivisível” de discussões contemporâneas como:

  • relatividade (tempo como grandeza dependente do observador e da geometria do espaço-tempo);
  • cosmologia (seta do tempo, expansão, horizontes e limites de observação);
  • propostas de tempo emergente (tempo como derivado de relações e não como entidade fundamental).

Essas aproximações podem ser úteis apenas se mantivermos a diferença de planos:

  • A física descreve regularidades mensuráveis e modelos de predição do fenômeno.
  • A metafísica descreve o estatuto do ser, a dependência ontológica do criado e a relação entre manifestação e Princípio.

Quando confundimos os planos, surgem leituras simplistas do tipo “a relatividade prova Ibn ʿArabī” ou “o misticismo antecipou a cosmologia”. O que se pode dizer com rigor é mais modesto:

  • certas intuições metafísicas (como a não-substancialidade do tempo) deixam de parecer absurdas quando percebemos que a própria física moderna não trata o tempo como um absoluto newtoniano simples;
  • a linguagem akbariana oferece um vocabulário para pensar o tempo como dependência e não como “coisa”.

5. Um quadro de camadas do tempo (para orientar o estudo)

Para evitar confusões, podemos trabalhar com um quadro de camadas que se interpenetram sem se reduzirem umas às outras:

5.1. Tempo físico (medida)

Tempo como parâmetro de descrição do movimento e das mudanças observáveis.

5.2. Tempo psicológico (experiência)

Tempo como duração sentida, memória, antecipação, ansiedade e esperança — isto é, a “arquitetura” temporal da alma.

5.3. Tempo imaginal (forma e símbolo)

Tempo como configuração de sentido: uma visão pode condensar anos em segundos, um sonho pode “antecipar” ou “revelar” sem seguir a cronologia comum. Aqui já tocamos o tema do mundo imaginal, que estudaremos no próximo artigo.

5.4. Tempo metafísico (teofania)

Tempo como sucessão de teofanias (tajdīd al-khalq), onde cada instante é uma nova doação do ser. O Sábado Eterno marca a referência à imutabilidade do Princípio.


Se você mantiver esse mapa em mente, fica mais fácil avançar nos próximos textos: primeiro, a função do mundo imaginal como ponte entre espírito e matéria; depois, a leitura dos astros e esferas como símbolos de funções e arquétipos, não como determinismos.


Quer conversar mais sobre este tema?