Esta leitura faz parte de uma série
Este artigo integra a série “Introdução à Cosmologia Sufi segundo Ibn ʿArabī”, desenvolvida a partir de um estudo mais longo publicado no Islamic Space. Cada texto aprofunda um aspecto da cosmologia akbariana em diálogo com a cosmologia científica moderna. Para uma visão geral da série, consulte o Guia da Série:
Para facilitar a leitura dos termos árabes e dos conceitos técnicos aqui apresentados, você pode contar com o Glossário de Termos da Cosmologia Sufi segundo Ibn ʿArabī, que reúne definições breves e etimologias básicas.
3. Estrutura da Cosmologia Sufi segundo Ibn ʿArabī
A cosmologia de Ibn ʿArabī é, ao mesmo tempo, um modelo metafísico do universo e um mapa espiritual do caminho humano. Ela descreve níveis da realidade que vão desde o Ser absoluto (al-Ḥaqq) até o mundo sensível, passando por domínios intermediários como a Nuvem (al-ʿAmā’), o Intelecto Primeiro, a Alma Universal, o Corpo Universal, o Trono, o Pedestal e o mundo imaginal (ʿĀlam al-Mithāl).
Cada um desses níveis não é um “lugar” físico, mas um domínio ontológico e um grau de determinação da manifestação. Ao percorrê-los, não estamos desenhando um mapa astronômico, e sim um mapa da presença divina no cosmos.
3.1. O princípio supremo: al-Ḥaqq (O Real)
Tudo começa — e, em certo sentido, tudo termina — em al-Ḥaqq, o Real. Ibn ʿArabī parte de uma premissa radical:
Só há o Ser (al-Wujūd). Tudo o mais é manifestação.
O Real é:
- absoluto;
- sem limitação;
- além de todas as determinações;
- irredutível a qualquer conceito.
O universo inteiro, com suas formas, tempos e lugares, é compreendido como teofania (tajallī): modos pelos quais o Real se mostra sob diferentes faces. O que chamamos de “existência” das coisas não é senão a presença do Real nelas, segundo medidas específicas.
Essa visão sustenta a doutrina da unidade do Ser (de que falaremos mais adiante, ao tratar de ontologia), mas já aqui ela indica que a cosmologia não é autônoma: não se pode falar do cosmos sem falar do Real que o faz ser.
3.2. A “Nuvem” (al-ʿAmā’): o estado pré-cósmico
O primeiro “véu” onde o Real se deixa entrever enquanto possibilidade de criação é o que Ibn ʿArabī chama de al-ʿAmā’, frequentemente traduzido como “Nuvem” ou “Neblina” metafísica.
Essa Nuvem não é matéria, não é espírito, não é espaço, não é tempo. É, como explica Mohamed Haj Yousef, o campo da indeterminação absoluta:
- não possui forma nem dimensão;
- não admite ainda distinção entre sujeito e objeto;
- é o domínio onde todas as formas possíveis estão latentes, ainda não diferenciadas.
Ibn ʿArabī cita um hadith:
“Deus estava em uma Nuvem; não havia ar acima dela nem abaixo dela.”
A linguagem é simbólica, mas aponta para uma realidade pré-cósmica em que o Ser absoluto se mostra numa modalidade de potência ilimitada de manifestação.
3.3. O Intelecto Primeiro (al-ʿAql al-Awwal)
A primeira determinação verdadeira que emerge da Nuvem é o Intelecto Primeiro (al-ʿAql al-Awwal), também chamado de Intelecto Universal ou Pena Suprema (al-Qalam).
Esse Intelecto:
- recebe imediatamente o conhecimento divino;
- contém em si todas as formas e determinações possíveis do cosmos;
- funciona como uma espécie de “programação” arquetípica da criação.
Ibn ʿArabī recorre à metáfora de um erudito que guarda em si todo conhecimento possível: do mesmo modo, o Intelecto Universal detém, em seu modo próprio, toda a estrutura da realidade que se manifestará nos níveis subsequentes.
3.4. A Alma Universal (an-Nafs al-Kulliyya)
A partir do Intelecto, surge a Alma Universal (an-Nafs al-Kulliyya), identificada com a Tábua Guardada (al-Lawḥ al-Maḥfūẓ).
Enquanto o Intelecto é como a Pena que escreve, a Alma é como a Tábua que recebe a escrita:
- o Intelecto inscreve na Alma Universal as determinações do cosmos;
- a Alma acolhe e conserva essas formas em estado de preparação para a manifestação.
A Alma Universal possui duas forças:
- Força intelectiva – recebe e contempla as determinações vindas do Intelecto;
- Força ativa – imprime essas determinações na existência, dando-lhes forma e movimento.
Esse jogo entre recepção e atividade prepara a passagem da possibilidade pura para a existência efetiva.
3.5. O Corpo Universal (al-Jism al-Kullī)
Do dinamismo da Alma Universal emerge o Corpo Universal (al-Jism al-Kullī), que é a primeira corporeidade do cosmos. Não se trata ainda de matéria física no sentido da física moderna, mas do princípio de toda manifestação corpórea.
É com o Corpo Universal que podemos começar a falar de:
- espaço,
- dimensão,
- movimento,
- direção.
Ele é a matriz metafísica de tudo o que, mais tarde, será percebido como mundo sensível: astros, elementos, corpos, formas visíveis.
3.6. O Trono (al-ʿArsh) e o Pedestal (al-Kursī)
Acima do Corpo Universal e imediatamente abaixo do plano mais abrangente da manifestação estão duas esferas simbólicas fundamentais: o Trono (al-ʿArsh) e o Pedestal (al-Kursī).
3.6.1. O Trono Divino (al-ʿArsh)
O Trono é descrito como a mais ampla abrangência da criação manifestada. Ele:
- contém tudo o que existe;
- simboliza a Totalidade da Existência;
- está associado à Misericórdia que envolve e sustenta o cosmos.
O Alcorão afirma:
“O Todo-Misericordioso estabeleceu-Se sobre o Trono.” (20:5)
Na leitura akbariana, isso não significa que Deus “ocupa um lugar”, mas que o domínio máximo da criação é, por assim dizer, o “campo de manifestação” da Misericórdia divina.
3.6.2. O Pedestal (al-Kursī)
O Pedestal está “dentro” do Trono, representando um patamar mais específico:
- a ordem das leis;
- a estabilidade da criação;
- a base das determinações naturais.
O Alcorão diz:
“Seu Pedestal abrange os céus e a terra.” (2:255)
Ibn ʿArabī explica que o Pedestal contém as esferas espirituais e materiais. Em termos simbólicos, podemos dizer que ele configura o campo onde as leis e ritmos do cosmos se organizam, enquanto o Trono indica a totalidade dentro da qual tudo isso se insere.
3.7. As esferas e os céus: o cosmos manifestado
A partir do Pedestal, as esferas cósmicas se desdobram em uma ordem que remete, em parte, ao modelo astronômico clássico:
- Esferas espirituais superiores;
- Esferas dos astros “errantes” (Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno);
- Esfera das estrelas fixas;
- Esfera “sem estrelas”, limite do cosmos sensível;
- Esferas sublunares, ligadas aos elementos (fogo, ar, água, terra).
Para Ibn ʿArabī, porém, essas esferas não são principalmente objetos de astronomia física. Elas são símbolos de graus de ser e de luz:
- quanto mais “alto” o nível, mais sutil e mais próximo da origem;
- quanto mais “baixo”, mais denso, mais preso à combinação de formas.
Essa hierarquia cósmica serve também como mapa da alma humana, que pode se elevar, por conhecimento e purificação, atravessando simbolicamente essas esferas em direção à proximidade com o Real.
3.8. O mundo imaginal (ʿĀlam al-Mithāl)
Entre o espírito puro e a matéria densa, Ibn ʿArabī identifica um domínio intermediário chamado mundo imaginal (ʿĀlam al-Mithāl). É essencial não confundi-lo com o “imaginário” no sentido de irreal ou fantasioso.
O mundo imaginal:
- não é físico, mas possui formas, cores, movimentos;
- não é puramente espiritual, mas tem uma espécie de “densidade sutil”;
- é o domínio das visões autênticas, sonhos verdadeiros, símbolos reveladores.
É nesse mundo que:
- as determinações espirituais podem assumir formas acessíveis ao coração e à imaginação;
- as realidades invisíveis se tornam visíveis em imagens adequadas à capacidade do observador.
Para a via espiritual, esse mundo é fundamental:
- ele permite que o conhecimento de Deus e dos mistérios do Ser seja velado e revelado ao mesmo tempo;
- protege o buscador, oferecendo símbolos que podem ser meditados sem que o segredo seja exposto de modo bruto.
3.9. O ser humano como espelho do cosmos (al-Insān al-Kāmil)
No ápice da cosmologia sufi de Ibn ʿArabī está a figura de al-Insān al-Kāmil, o “Homem Universal” ou “ser humano perfeito”. Essa expressão não se refere apenas a indivíduos excepcionais, mas à vocação profunda do ser humano enquanto tal.
Segundo Ibn ʿArabī:
- o ser humano reúne em si todos os níveis do cosmos;
- tudo o que existe “fora” tem um correspondente, em grau, “dentro” da alma humana;
- conhecer-se a si mesmo é, de algum modo, conhecer o cosmos;
- e conhecer o cosmos é conhecer um espelho onde o Real Se dá a ver.
Essa visão antropocósmica tem consequências espirituais decisivas:
- o caminho de autoconhecimento não é mero fechamento em si, mas abertura ao Real que se espelha em nós;
- o universo deixa de ser um cenário indiferente e se torna um conjunto de sinais (āyāt) que remetem à presença divina;
- a própria linguagem cosmológica de Ibn ʿArabī deve ser lida como um convite à transformação interior.
3.10. Cosmologia como mapa espiritual
Ao final deste panorama, podemos resumir: a estrutura da cosmologia sufi de Ibn ʿArabī não é uma teoria concorrente da cosmologia científica, mas um mapa espiritual do ser. Ela mostra:
- de onde procedem as formas (Intelecto, Alma, Corpo Universal);
- em que campos se organizam (Trono, Pedestal, esferas);
- como se traduzem em imagens (mundo imaginal);
- e onde tudo isso se reúne e é recapitulado (ser humano).
Nos próximos artigos, veremos como o tempo atravessa todos esses níveis e como a doutrina da recriação contínua reconfigura nossa compreensão da mudança, da permanência e da relação entre unidade e multiplicidade.
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O próximo texto é o Artigo 4 – O Tempo em Ibn ʿArabī e a Recriação Contínua, no qual abordaremos a teoria akbariana do tempo, os dias divinos e a doutrina do tajdīd al-khalq:
O Tempo em Ibn ʿArabī e a Recriação Contínua
Referências bibliográficas
- Ibn ʿArabī – Time and Cosmology – Mohamed Haj Yousef. Disponível na Amazon.
- Time and Eternity: Exploring God’s Relationship to Time – William Lane Craig. Disponível na Amazon.
- Mystical Astrology According to Ibn ʿArabi – Titus Burckhardt. Disponível na Amazon.
- Introduction to Astronomy and Cosmology – Ian Morison. Disponível na Amazon.