Blockchain em Sistemas Médicos: Estratégia, Limites e um Paralelo com o Islamic Passport

Sistemas médicos são, por natureza, sistemas de registro: acumulam históricos (prontuários), eventos (consultas, exames, prescrições), autorizações (consentimento) e responsabilidades (quem viu, quem alterou, quando e por quê). Essa é uma das razões pelas quais o debate sobre blockchain na saúde costuma aparecer com força: não como “moda tecnológica”, mas como uma tentativa de responder a problemas recorrentes de integridade, auditoria e interoperabilidade.

Este artigo segue como base um panorama de casos e usos de blockchain em saúde, e organiza a discussão com fontes mais diretas (como MIT Media Lab, Guardtime e comunicados corporativos sobre iniciativas de rastreabilidade). Ao final, faço um paralelo com o Islamic Passport, que é documentado publicamente como uma plataforma distribuída de identidade, reputação e registro confiável para muçulmanos e entidades islâmicas.

Por que blockchain entra na conversa em saúde

O argumento mais comum para blockchain em saúde não é “colocar o prontuário inteiro na blockchain”, e sim:

1) Manter um registro imutável (ou verificável) de eventos relacionados a dados sensíveis.

2) Padronizar e registrar permissões (quem pode acessar, por quanto tempo, em qual contexto).

3) Criar trilhas de auditoria que reduzam disputas e aumentem confiança entre instituições.

Na prática, isso pode aparecer como:

  • um “livro-razão” (ledger) de acessos e atualizações;
  • assinaturas e provas criptográficas de integridade;
  • mecanismos para coordenar consentimento entre múltiplos provedores.

O que a literatura do MedRec (MIT) descreve como estratégia

No contexto de prontuários eletrônicos (EHR/EMR), o projeto MedRec é frequentemente citado como um exemplo de arquitetura que usa blockchain para gestão de acesso e permissão, sem necessariamente criar um grande repositório centralizado.

Em seu resumo (MIT Media Lab), a proposta descreve um sistema de gestão de registros médicos eletrônicos usando blockchain, com:

  • um log abrangente e imutável de acesso e informação médica do paciente;
  • mecanismos de autenticação, recuperação de dados, rastreamento de atualizações, entrada de dados e compartilhamento;
  • a ênfase de que o sistema pode operar sem criar repositórios centralizados de dados, integrando-se com armazenamento local já existente nos provedores, e facilitando troca interoperável.

Esse ponto é essencial para a “estratégia”: em muitos ambientes de saúde, o dado clínico é grande, regulado, sujeito a retificação legítima (ex.: correções), e envolve múltiplos sistemas legados. Um caminho viável é usar blockchain como camada de coordenação e prova, e não como único lugar onde o dado “vive”.

Integridade e carimbo do tempo (timestamping) como peça tática

Em vez de tentar resolver tudo com um único mecanismo, uma abordagem recorrente é focar em integridade: provar que um registro existia em determinado momento e que não foi adulterado.

A Guardtime descreve sua abordagem de KSI Blockchain Timestamping para verificação de integridade de dados “em repouso” (data integrity), destacando que:

  • o modelo é voltado a integridade e não requer chaves da forma como soluções tradicionais de PKI exigem;
  • os timestamps podem ser verificados independentemente (sem depender do próprio fornecedor), usando âncoras de confiança amplamente testemunhadas;
  • é pensado para armazenamento e verificação de longo prazo, com a alegação de resistência a ataques de computação quântica e foco em arquivamento.

Para saúde, isso é relevante porque prontuários e evidências de auditoria frequentemente precisam sobreviver por longos períodos e ser verificáveis em disputas, perícias e conformidade.

Cadeia de suprimentos farmacêutica: rastreabilidade e conformidade

Outra área de “encaixe” natural para blockchain é a rastreabilidade na cadeia de medicamentos — onde o problema é menos “prontuário clínico” e mais origem, custódia, temperatura, integridade do produto e combate a falsificação.

Em 2019, IBM, KPMG, Merck e Walmart comunicaram participação em um programa selecionado pela U.S. Food and Drug Administration (FDA) ligado ao U.S. Drug Supply Chain Security Act (DSCSA), com a proposta de uma rede blockchain permissionada para:

  • permitir monitoramento em tempo real;
  • reduzir o tempo para rastrear inventário;
  • permitir recuperação oportuna de informação de distribuição confiável;
  • aumentar acurácia de dados compartilhados;
  • apoiar determinação de integridade do produto na cadeia (incluindo condições como temperatura).

Esse tipo de iniciativa não é um “prontuário”, mas ajuda a ilustrar por que blockchain aparece com força em saúde: a rede envolve muitos atores, requer confiança verificável e lida com auditoria e rastreabilidade.

Limites e riscos (onde blockchain não “magicamente resolve”)

Mesmo em materiais introdutórios (como o artigo-base usado aqui), aparecem limites recorrentes:

  • Adoção e integração: inserir blockchain em ecossistemas existentes pode exigir mudanças de infraestrutura e alinhamento regulatório.
  • Escalabilidade e custo: redes podem ficar lentas/caras quando tentam carregar grandes volumes de dados.
  • Privacidade: a natureza distribuída aumenta o cuidado necessário sobre o que é publicado, como é compartilhado, e que metadados podem vazar.

Em saúde, onde o dado é altamente sensível, essas restrições geralmente empurram arquiteturas para:

  • armazenar dados clínicos em repositórios apropriados (com governança e controles),
  • e usar blockchain para provas, logs, consentimento e verificação.

Paralelo com o Islamic Passport: registros, identidade e vida comunitária

O Islamic Passport (IPass) é descrito publicamente como:

  • um “sistema distribuído concebido para identificação e validação de muçulmanos em todo o mundo”, oferecendo “uma camada adicional de confiança”;
  • um aplicativo de validação social voltado a muçulmanos e entidades islâmicas, que “por meio de credenciais, votos de confiança e trilhas de auditoria compartilhadas, certifica identidades, reputações e compromissos éticos”.

E também delimita o que não é (por exemplo, não operar como “vitrine de perfis” e não ser uma rede social de exposição pública), reforçando que interações e módulos seguem regras de discrição e resguardo.

A semelhança com sistemas de registros médicos não está no conteúdo (vida religiosa e social não é “dado clínico”), mas na natureza do problema:

  • saúde registra a história clínica do paciente “ao longo do tempo”;
  • o Islamic Passport se propõe a registrar e validar uma trajetória — identidade, reputação, vínculos e compromissos éticos — dentro da Ummah.

Na prática, ambos lidam com um conjunto de necessidades parecidas:

  • Histórico confiável (quem emitiu credenciais/atestados, quando, sob quais condições);
  • Acesso contextual (quem pode ver o quê, em que momento, com qual justificativa);
  • Auditoria e responsabilidade (trilhas verificáveis para reduzir abuso e aumentar confiança);
  • Interoperabilidade social/institucional (múltiplas entidades participando do processo de validação).

Esse paralelo também ajuda a manter o debate de blockchain em saúde no lugar certo: a tecnologia é menos sobre “substituir tudo” e mais sobre organizar confiança entre participantes, com regras, verificabilidade e governança.

Conclusão

Blockchain em saúde costuma ser defendida como uma estratégia para:

  • fortalecer integridade e auditoria;
  • coordenar consentimento e acesso;
  • viabilizar rastreabilidade em cadeias complexas como a farmacêutica.

O Islamic Passport, por sua vez, é apresentado como uma infraestrutura de identidade, reputação e confiança para a Ummah, com credenciais, votos de confiança e trilhas auditáveis. O elo conceitual entre esses mundos é o mesmo: quando um sistema precisa registrar uma vida (clínica ou comunitária) e fazer isso de modo verificável, com múltiplas instituições e altos riscos de abuso, a conversa naturalmente gira em torno de provas criptográficas, auditoria e governança.

Fontes

  • https://web3oclock.com/blockchain-in-healthcare-real-world-case-studies-and-implementations/
  • https://www.media.mit.edu/publications/medrec-blockchain-for-medical-data-access-permission-management-and-trend-analysis/
  • https://www.media.mit.edu/publications/medrec-whitepaper/
  • https://guardtime.com/timestamping
  • https://corporate.walmart.com/news/2019/06/13/ibm-kpmg-merck-and-walmart-to-collaborate-as-part-of-fdas-program-to-evaluate-the-use-of-blockchain-to-protect-pharmaceutical-product-integrity
  • https://islamicpassport.rapport.tec.br/
  • https://islamicpassport.rapport.tec.br/news/2025-10-22-kickoff-islamic-passport/
  • https://islamicpassport.rapport.tec.br/news/2025-10-23-o-que-o-islamic-passport-nao-e/
  • https://islamicpassport.rapport.tec.br/news/2025-11-18-por-que-o-nome-islamic-passport/