Astros e Arquétipos segundo Ibn ʿArabī

Esta leitura faz parte de um ciclo avançado

Este artigo aprofunda o modo como Ibn ʿArabī lê os astros, esferas e céus como símbolos de funções espirituais e arquétipos, indo além de qualquer astrologia determinista.


1. Esferas, planetas e funções espirituais

Nesta parte, trataremos de:

  • como as esferas celestes aparecem na cosmologia de Ibn ʿArabī;
  • o significado simbólico dos planetas clássicos (Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno);
  • a correspondência entre esses níveis cósmicos e estados de consciência.

Em Ibn ʿArabī, o céu não é apenas um “objeto” astronômico: ele é também uma linguagem. As esferas, os movimentos e as luzes do alto servem como espelhos de funções do ser — e, por isso, podem ser lidos simbolicamente.

Aqui é indispensável um esclarecimento inicial: essa leitura não equivale a afirmar um determinismo astrológico. Trata-se de correspondências e analogias ontológicas, não de fatalismo.

2. O céu como “texto”: cosmologia e inteligibilidade

A cosmologia tradicional (com esferas e céus) pode ser tomada hoje como um modelo histórico; porém, o ponto akbariano que permanece é a ideia de que a ordem cósmica manifesta proporções, ritmos e qualidades.

Em outras palavras:

  • os astros podem ser estudados pela astronomia, no plano físico;
  • e podem ser lidos como símbolos, no plano imaginal e espiritual.

Essa segunda leitura se apoia no que discutimos no artigo sobre o mundo imaginal: há um nível em que a forma é portadora de significado. O céu, nesse sentido, é um grande campo de formas significantes.

3. Planetas clássicos: arquétipos funcionais (não fatalismo)

Quando o leitor encontra correspondências planetárias em autores sufi, deve entendê-las como arquétipos funcionais: modos típicos pelos quais certas qualidades se organizam e se tornam reconhecíveis.

Um resumo didático (não exaustivo) das funções simbólicas mais comuns:

3.1. Lua

Símbolo de recepção, mutabilidade e reflexão. Indica a capacidade de receber formas, espelhá-las e transmiti-las.

3.2. Mercúrio

Símbolo de mediação, linguagem e articulação. Indica a inteligência que liga, interpreta e traduz.

3.3. Vênus

Símbolo de harmonia e atração. Indica a beleza como princípio de unificação e conciliação.

3.4. Sol

Símbolo de centralidade e iluminação. Indica a presença que torna as coisas manifestas e ordena os demais níveis.

3.5. Marte

Símbolo de separação, força e decisão. Indica a energia que corta, delimita e protege.

3.6. Júpiter

Símbolo de expansão, justiça e amplitude. Indica a magnanimidade, a medida larga e o discernimento que dá a cada coisa seu lugar.

3.7. Saturno

Símbolo de limite, maturação e sobriedade. Indica a prova do tempo, a depuração e a estrutura.

Essas “assinaturas” não devem ser usadas para prever o destino de alguém. Elas servem, antes, para contemplar como qualidades espirituais podem aparecer na vida e na consciência.

4. Astros, Nomes Divinos e a hierarquia das qualidades

O passo mais propriamente akbariano é compreender que essas funções não são autônomas: elas remetem aos Nomes Divinos. Os astros, então, não seriam causas independentes, mas espelhos de qualidades pelas quais o Real se torna conhecido.

Assim, o estudo simbólico dos céus pode se tornar um exercício de leitura do mundo como teofania: o cosmos “diz” algo sobre o Princípio, sem jamais esgotá-lo.

5. Influência simbólica vs. causalidade física

Para evitar equívocos, vale manter a distinção:

  • Causalidade física: relações mensuráveis (gravidade, radiação, dinâmica orbital etc.).
  • Influência simbólica: ressonâncias de sentido, onde uma forma orienta a percepção e a interpretação.

Ibn ʿArabī, ao falar de correspondências, opera sobretudo na segunda camada, sem negar a primeira. Quando tentamos deslocar a segunda para a primeira (como se “Marte” causasse fisicamente um ato moral), nós deformamos o símbolo.

6. Ética do símbolo: como usar (e como não usar)

No contexto contemporâneo, a leitura simbólica dos astros só é saudável se vier acompanhada de critérios:

  • não substituir responsabilidade ética por “mapas” celestes;
  • não absolutizar correspondências como se fossem leis universais rígidas;
  • usar o símbolo para autoconhecimento, vigilância do coração e refinamento de intenção.

Essa sobriedade também protege o leitor contra a curiosidade excessiva que transforma a cosmologia espiritual em entretenimento.


Se o artigo anterior mostrou o mundo imaginal como ponte entre espírito e matéria, e o artigo sobre o tempo mostrou camadas de experiência temporal, aqui vemos a mesma lógica aplicada ao céu: os astros funcionam como uma gramática de formas, cuja leitura correta é simbólica, contemplativa e ética.


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